“O Trem das Onze” e o crescimento de Santana, Tucuruvi, Mandaqui, Jaçanã e Tremembé

santana em 1942_bj duarte

Santana em 1942/ B.J Duarte/ Acervo PMSP

Imortalizada na música “O Trem das Onze”, de Adoniran Barbosa, a Tramway da Cantareira norteou o crescimento e o desenvolvimento de bairros da zona norte, como Santana, Mandaqui, Jaçanã e Tucuruvi.

A extinta linha ferroviária, construída em 1893, ligava o centro de São Paulo ao reservatório de água da Cantareira. Inicialmente a linha transportava somente materiais de construção, mas a partir de 1895, começou a transportar passageiros.

Anterior ao Trem da Cantareira é a Fazenda Sant’Ana, que originou o distrito de Santana. A fazenda foi citada pela primeira vez em 1560 pelo padre José de Anchieta e pertencia à Companhia de Jesus. Pela fazenda, onde muitos índios foram catequizados, passava o Caminho do Guaré, que nasceu de uma trilha indígena e ligava São Paulo a Atibaia e Minas Gerais.

Antiga Fazenda Sant’Ana, por volta de 1916/Autor Desconhecido
Antiga Fazenda Sant’Ana, por volta de 1916/Autor Desconhecido

No século 19 a área era chamada de Solar dos Andrada, sede da fazenda da família Andrada. Lá foi redigida a representação paulista, carta que contribuiu para os eventos do “Dia do Fico”, em nove de janeiro de 1822. Hoje os remanescentes dessa construção situam-se no quartel do Exército, onde funciona o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de São Paulo (CPOR), de 1948. Pode-se dizer que a ocupação da região se desenvolveu nos arredores dessa antiga fazenda.

Santana mantém algumas edificações que ajudam a contar sua história. O conjunto de residências em estilo normando, construído na chácara que pertenceu a Francisco Antônio Baruel é um deles. Compõe-se do Palacete Baruel e da sede da Biblioteca Narbal Fontes, da Prefeitura, que foi residência de Maria Galvão Bueno Rodrigues, neta de Francisco Baruel.

Biblioteca Narbal Fontes, 1954/Gabriel Zellaui/Acervo PMSP
Biblioteca Narbal Fontes, 1954/Gabriel Zellaui/Acervo PMSP

Junto com Pedro Doll, a família financiou a construção da Capela de Santa Cruz, aberta em 1895. Um dos párocos desta capela foi o padre Roberto Landell de Moura, que realizava experiências radiofônicas e é apontado como inventor do rádio por alguns pesquisadores.

Escola Estadual Padre Vieira é uma construção do período da Primeira República, quando se iniciou o primeiro grande projeto de educação pública no Brasil. Sua arquitetura eclética possui inspirações art nouveau e art déco, e é característica desse programa educativo. Construída na década de 1950, no âmbito do extensivo programa do Convênio Escolar, com edifícios em arquitetura moderna, tem-se a Escola Estadual Doutor Octavio Mendes, também conhecida como Cedom.

Santana abriga também outros equipamentos que, apesar de serem construções mais recentes, contam parte da história da cidade. O Campo de Marte foi o primeiro e principal aeroporto de São Paulo até 1936, ano de inauguração do Aeroporto de Congonhas. O Parque da Juventude está localizado no antigo Complexo Penitenciário do Carandiru. Após sua desativação foi construído um grande parque com biblioteca, escola técnica e áreas de lazer. No centro do Parque foi conservada uma parte da estrutura do presídio, envoltas por trepadeiras e árvores.

O conjunto do Parque do Anhembi é outra área marcante, construída às margens do Tietê, onde havia antigos campos de futebol de várzea. Inclui o grande Pavilhão de Exposições, do arquiteto Jorge Wilheim, e o Sambódromo, projeto de Oscar Niemeyer, construído em 1991 e que marcou a consolidação e promoção do carnaval de São Paulo.

Vista aérea do Parque Anhembi em 1973/Edison Pacheco Aquino/Acervo PMSP
Vista aérea do Parque Anhembi em 1973/Edison Pacheco Aquino/Acervo PMSP

Outro bairro que remonta à época inicial da colonização do Brasil é o Mandaqui. A primeira referência ao local data de 1615, quando o bandeirista Amador Bueno autorizou a construção de um moinho de água na região. Já no século 19 o local foi procurado por imigrantes europeus que se instalaram em algumas chácaras, pois a proximidade com a serra da Cantareira remetia às suas terras natais. O trem da Cantareira também cortava o bairro e, a partir de 1928, os herdeiros de Alfredo Zumkeller lotearam a antiga fazenda de seu antepassado.

O Jaçanã, bairro onde mora a personagem da música de Adoniran Barbosa, recebeu este nome somente na década de 1930. Até 1870 era conhecido como Uruguapira, pois os bandeirantes acreditavam haver ouro na região. No entanto, as buscas foram frustradas e a área voltou a ser chamada pelo nome dado pelos índios: Guapira. O distrito foi loteado em 1934 pelos irmãos Mazzei e abrigou o primeiro estúdio cinematográfico de São Paulo, a Cia Cinematográfica Maristela.

Além do patrimônio cultural, o Jaçanã ficou por muito tempo conhecido como zona hospitalar, pois lá havia o Asilo de Medicina Municipal, hoje o Hospital Geriátrico e de Convalescentes D. Pedro II, administrado pela Santa Casa de São Paulo. A construção em pavilhões, de 1911,  inicialmente recebia os inválidos de qualquer idade, abandonados e doentes crônicos. Outro conjunto importante é o Hospital São Luiz Gonzaga, antigo Hospital dos Lázaros, da Santa Casa, inaugurado em 1904; abriga em alguns de seus ambientes painéis artísticos de Alfredo Volpi, Aldo Bonadei, Tarsila do Amaral, e um painel em mosaico de Sansom Flexor.

Tremembé e Tucuruvi se desenvolveram principalmente a partir da construção da Tramway da Cantareira. O Tremembé surgiu em 1820, a partir do desmembramento da Fazenda Vicente de Azevedo. Inicialmente a fazenda fora dividida em chácaras e glebas médias. Já na década de 1910 os filhos de Pedro Vicente criaram a Cia Villa Albertina Terrenos e lotearam o bairro. Este situa-se no limite do Parque Estadual da Cantareira e do Parque Estadual Alberto Löfgren, também conhecido como Horto Florestal. Os parques são unidades de conservação da Mata Atlântica.

O Tucuruvi, por sua vez, se originou em 1903, quando o inglês William Harding comprou uma grande gleba na área, de onde surgiu um primeiro núcleo residencial. O bairro cresceu lentamente e em 1918 foi inaugurada a Escola Beneficente do Tucuruvi e a Igreja do Menino Jesus. O antigo Grupo Escolar Silva Jardim foi projetado por José Maria da Silva Neves, no início da década de 1930, com elementos da arquitetura proto moderna e art déco.

Igreja do Menino Jesus/Luiz Rubello/Acervo PMSP
Igreja do Menino Jesus/Luiz Rubello/Acervo PMSP