A modernidade arquitetônica que floresceu e se consolidou na Vila Mariana, Moema e Saúde

Fachada da Casa Modernista da rua Santa Cruz/Autor desconhecido

Fachada da Casa Modernista da rua Santa Cruz/Autor desconhecido

Foi na Vila Mariana que o modernismo arquitetônico brasileiro começou a tomar forma. Lá, o arquiteto ucraniano Gregori Warchavchik construiu a primeira casa com essa linguagem, conhecida como Casa Modernista da rua Santa Cruz, para residir com a família. Não menos pioneiro foi o jardim da residência, projetado por Mina Klabin, esposa do arquiteto.

Embora o modernismo arquitetônico seja uma marca do bairro, a história dessa região e da vizinha Saúde remonta a 1782, quando ambas faziam parte da mesma sesmaria. O primeiro nome da região foi Cruz das Almas, em referência à grande cruz erguida em memória de dois tropeiros assassinados por ladrões nas proximidades da atual rua Afonso Celso. A localidade tomou importância pois lá passava a “estrada do Vergueiro” —hoje uma rua com o mesmo nome—, parte do então novo caminho para Santos no século 19.

A origem do nome Vila Mariana, recebido em 1887, tem duas versões. A primeira diz que o construtor alemão Alberto Kuhlmann deu o nome de sua esposa, Mariana, a uma das estações da linha férrea do ramal que ele mesmo construiu na região para transportar a carne do futuro matadouro para o centro da cidade. A outra versão diz que a denominação vem da junção dos nomes Maria e Ana, respectivamente mulher e mãe de Carlos Petit, tenente-coronel da Guarda Civil, delegado, juiz de paz e vereador da cidade, que morava na região.

Outro bairro vizinho e com origem parecida é Moema. Assim como os demais bairros da região, teve origem no Sítio da Traição, chácara cortada pelos trilhos de bonde que ligava São Paulo ao então município de Santo Amaro.

No fim do século 19, a área foi ocupada por chácaras menores de imigrantes ingleses e alemães. Mais tarde, durante a década de 1930, o bairro recebeu indústrias e atraiu imigrantes russos e lituanos. Nas ruas Normandia e Gaivota há um conjunto de casas tombadas pelo Conpresp que preservam esse momento da história do bairro. O nome Moema foi dado somente em 1987, após um abaixo assinado dos moradores da região. Antes disso, o distrito era conhecido como Indianópolis.

No fim do século 19, imigrantes vindos do norte da Itália formaram pequenas chácaras no local, que ficou conhecido como Colônia. Com a construção da estrada de ferro que ligava São Paulo a Santo Amaro, no final do século 19, foi erguido o matadouro da Vila Mariana, em substituição ao anterior, do Largo da Pólvora, área que havia se tornado muito urbanizada. O matadouro funcionou até 1927 e hoje abriga a Cinemateca Brasileira.

Antigo Matadouro, atual Cinemateca Brasileira/Aurelio Becherini/PMSP
Antigo Matadouro, atual Cinemateca Brasileira/Aurelio Becherini/PMSP

No início do século passado, a rua Domingos de Morais, uma das mais importantes do bairro, era ponto de encontro de escritores, políticos, membros da elite econômica e artistas. A Vila Mariana mantém parte dos casarões centenários que conservam essa memória, como um palacete eclético em estilo mourisco que abriga hoje um hostel, mostrando que o uso é um dos fatores que mais contribuem para a manutenção de imóveis históricos.

Com a chegada do século 20, o bairro foi tomando características arquitetônicas modernistas, rompendo com o eclético e os múltiplos estilos que representavam a elite cafeeira e seu anseio de se mostrar cosmopolita. As novas elites intelectuais urbanas começavam a ditar suas regras nos costumes da cidade e, justamente por ser frequentada pelos intelectuais da época, a Vila Mariana teve um papel pioneiro nessa transformação.

Vila Mariana e seu conjunto de imóveis modernos

Em 1928, Gregori Warchavchik construiu a Casa da Rua Santa Cruz, com uma abordagem tão vanguardista que teve dificuldade em obter aprovação na prefeitura: precisou de um projeto “falso”, com ornamentos, para receber permissão de construção. No ano seguinte, o arquiteto projetou a Vila Modernista da rua Berta. Em 1932, nessa mesma rua, Warchavchik projetou a residência de Lasar Segall, o pintor, escultor e gravurista lituano que integrou a vanguarda artística brasileira. Desde 1967, o imóvel é sede do museu dedicado ao artista.

Teatro João Caetano/Sylvia Masini
Teatro João Caetano/Sylvia Masini

A Vila Mariana também foi escolhida para abrigar a sede do Instituto Biológico, um impressionante edifício art déco cuja construção começou em 1928 e terminou em 1945.  Foi projetado pelo engenheiro Mário Whately para ser um centro de pesquisas agrícolas sobre o café. No início da década de 1950, foi erguido no bairro o Teatro João Caetano, um edifício modernista construído como parte do Convênio Escolar, um grande programa de construção de edifícios educacionais da época. O nome do teatro foi dado em homenagem ao ator e encenador brasileiro que fundou a primeira companhia de atores nacionais.

Instituto Biológico de São Paulo/Belrocha, 1994
Instituto Biológico de São Paulo/Belrocha, 1994

A Vila Mariana manteve seu pioneirismo arquitetônico ao receber, em 1960, o Conjunto Jardim Ana Rosa. O projeto dos arquitetos Abelardo de Souza, Eduardo Kneese de Mello e Salvador Candia, composto por nove edificações que ocupam um quarteirão, propunha o adensamento residencial como parte da solução da crise habitacional gerada pela explosão demográfica paulistana. Foi uma das maiores concentrações residenciais planejadas em São Paulo na época, ensejando uma forma moderna de moradia, com um boa inserção na cidade e usando técnicas de construção inovadoras.

Também na região, no distrito de Moema, estão residências da expressiva arquitetura brutalista paulista, ou do que se convencionou chamar escola paulista, com estrutura em concreto armado e paredes de bloco de cimento, projeto de forte teor social: a casa Rosa Okubo, de 1964, e a Casa Paulo Bittencourt Filho, de 1972, ambas do arquiteto Ruy Ohtake e tombadas pelo Conpresp.

Casa Rosa Okubo/Of Houses
Casa Rosa Okubo/Of Houses

O modernismo arquitetônico não só teve na Vila Mariana seu início, com a Casa da Rua Santa Cruz (ela é hoje administrada pelo Museu da Cidade de São Paulo), mas também sua consolidação, com a criação do Parque do Ibirapuera e seu conjunto de edificações projetado por Oscar Niemeyer e equipe. O complexo foi construído para as comemorações do IV Centenário da cidade. Com seus 1,58 km² de extensão, erguido sobre um terreno alagadiço, foi inicialmente uma aldeia indígena, depois serviu de pasto para os animais do Matadouro da Vila Mariana. O parque possui vários equipamentos, tais como a Fundação Bienal, o Museu de Arte Moderna (MAM), o Museu Afro Brasil, a OCA, o Pavilhão das Culturas Brasileiras, o Auditório Ibirapuera e o Planetário. Também parte do complexo, mas fora dos limites do parque, estão o Museu de Arte Contemporânea (MAC), o Monumento às Bandeiras, obra do escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret, e o conjunto do Obelisco e Mausoléu do Soldado Constitucionalista, onde estão os despojos dos ex-combatentes da Revolução de 1932.

Saúde: bairro-jardim

A área que hoje compreende a Saúde também fazia parte da antiga Cruz das Almas e só foi elevada a distrito em 1925. O povoamento se formou em torno da Paróquia de Nossa Senhora da Saúde, de 1917, que deu origem a seu nome. Havia nele um bosque (na área hoje conhecida como Bosque da Saúde), com parque de diversões infantil, o que mobilizava os paulistanos nos finais de semana. Em 1930, a área foi loteada pela Companhia City. Porém, o crescimento da Saúde ganhou força mesmo foi com a chegada do metrô em 1974, o que facilitou o fluxo de pessoas para a região.

Parte do loteamento inicial teve o planejamento idealizado pelo engenheiro Jorge de Macedo Vieira com base no conceito de bairro-jardim (daí o nome Jardim da Saúde), com muitas áreas ajardinadas e arborizadas, visando atrair as classes mais altas. O conceito nasceu com o inglês Ebenezer Howard e buscava resolver a pobreza e a insalubridade das moradias populares da Inglaterra pós-revolução industrial, bem como mitigar a poluição causada pela industrialização. O Jardim da Saúde ficou dividido em quatro bolsões residenciais perpassados por corredores comerciais e de serviços. Essa característica singular tornou o lugar importante na urbanização da então periferia paulistana, o que levou ao seu tombamento como área de preservação urbanística e ambiental.

Capela Cristo Operário/Gabriel Zellaui PMSP
Capela Cristo Operário/Gabriel Zellaui PMSP

Outro projeto da região surgiu a partir da iniciativa do frei dominicano João Batista Pereira dos Santos de criar uma cooperativa de produção de móveis chamada Unilabor, com autogestão operária e lucros partilhados entre os funcionários. O projeto se inspirou nos princípios do grupo católico Economia e Humanismo francês, dos anos 1940, que propunha o envolvimento da Igreja na criação de soluções efetivas para as desigualdades sociais geradas pelo sistema capitalista industrial. Integrava o projeto a Capela do Cristo Operário. Concluído em 1950, o pequeno templo apresenta uma arquitetura com elementos coloniais e a simplicidade das edificações rurais. Abriga um grande volume de obras de arte concebidas por artistas plásticos do modernismo brasileiro, tais como Alfredo Volpi, Geraldo de Barros, Roberto Burle-Marx entre outros.