A rápida urbanização dos bairros no entorno de Santo Amaro

Igreja de São Sebastião do Bororé/Fabio Donadio, 2013/Acervo do Departamento do Patrimônio Histórico

Igreja de São Sebastião do Bororé/Fabio Donadio, 2013/Acervo do Departamento do Patrimônio Histórico

Uma série de bairros localizados em torno de Santo Amaro —Grajaú, Cidade Dutra, Socorro, Jardim São Luís, Jardim Ângela, Capão Redondo e Campo Limpo— passaram, em pouco tempo, de antigas áreas rurais, pouco habitadas, para alguns dos distritos mais dinâmicos e populosos da cidade de São Paulo.

Até 1935, Santo Amaro era um município independente de São Paulo e constituía um núcleo urbano rodeado por áreas verdes. Em seu entorno, existia um extenso “cinturão rural”, paisagem muito distinta da que hoje se observa no local. Do Campo Limpo à Cidade Dutra, do Capão Redondo ao Grajaú, não havia ainda traços significativos de adensamento e urbanização.

Esse cinturão rural formava uma agradável área de lazer aos fins de semana. Os rios e as matas eram atrativos para a caça e a pesca. Havia chácaras e pequenas propriedades espalhadas por toda a região. Produzia-se batata, marmelada, farinha de mandioca e outros alimentos consumidos nos municípios de Santo Amaro e São Paulo. A área rural também era fonte de madeira, pedras e outros materiais de construção para os dois núcleos urbanos, que estavam em rápida expansão no início do século 20.

A Igreja de São Sebastião do Bororé representa muito bem este passado pacato e rural da região. Localizada em uma estreita península na represa Billings, no interior da Área de Proteção Ambiental de Bororé-Colônia, a igreja ainda preserva os traços de sua origem popular. Trata-se de uma pequena capela construída em 1904. A simplicidade da construção, com suas referências ecléticas e elementos neo-góticos, de alvenaria de tijolos, se deve ao estilo de vida rural e despojado das poucas famílias que então habitavam o local.

A construção das represas Guarapiranga (1906-1909) e Billings (1925-1927) ajudou a mudar o perfil de ocupação da região. Os reservatórios foram projetados com a finalidade de gerar energia elétrica para a cidade de São Paulo. O represamento da água teve, no entanto, um grande impacto na ocupação do território. As represas se tornaram verdadeiros balneários urbanos, cercados por clubes, pesqueiros e outros espaços de lazer. Logo a região passou a ser atrativa para os camadas mais ricas da sociedade.

Balsa do Bororé/Waldemir Gomes de Lima, 1936/Museu da Cidade de São Paulo
Balsa do Bororé/Waldemir Gomes de Lima, 1936/Museu da Cidade de São Paulo

 

O bairro de Interlagos, como o seu próprio nome sugere, foi construído entre as represas Billings e Guarapiranga como um empreendimento imobiliário de alto padrão. Louis Romero Sanson, presidente da empresa Autoestradas S.A., adquiriu terras no local por volta do ano de 1937 e o traçado do bairro foi concebido pelo urbanista francês Alfred Agache.

Av. Interlagos/Ivo Justino, 1968-1970/Museu da Cidade de São Paulo
Av. Interlagos/Ivo Justino, 1968-1970/Museu da Cidade de São Paulo

 

Interlagos foi projetado como uma “cidade-jardim”, com lotes amplos, ruas bem arborizadas e áreas planejadas para moradia, serviços e lazer. O autódromo foi construído também como atrativo para a venda dos lotes residenciais.

Para facilitar o acesso e estimular a ocupação da região, a Autoestradas S.A. construiu a avenida Interlagos e a ponte sobre o rio Jurubatuba. Apesar de todos os esforços, o empreendimento imobiliário de Interlagos não rendeu os frutos esperados. Eram poucas as famílias que dispunham de interesse e de meios de transporte próprios para se dirigir a esta parte da cidade. As novas vias serviram, de toda forma, como eixos de ocupação para novos empreendimentos e loteamentos nas décadas seguintes.

Um dos mais importantes clubes recreativos a se instalar na margem direita da represa Guarapiranga, em idos de 1960, foi o Santapaula Iate Clube. O projeto original, que incluía um grande hotel, foi adaptado pelos arquitetos Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi, que projetaram a área das piscinas, de lazer e uma garagem de barcos. Em face da ampla utilização do concreto armado e da arrojada concepção estrutural e arquitetônica, a garagem de barcos do Santapaula Iate Clube é considerado um marco da arquitetura moderna em sua vertente brutalista. Com o encerramento das atividades do clube no início dos anos 1980, o imóvel permanece sem uso até os dias de hoje.

Detalhe da fachada sudoeste da garagem de barcos do Santa Paula Iate Clube.
Detalhe da fachada sudoeste da garagem de barcos do Santa Paula Iate Clube

 

A formação de novas estradas, o aumento na circulação dos ônibus e a popularização do automóvel contribuíram bastante para o rápido crescimento populacional nesses “bairros dormitórios”, no entorno de Santo Amaro. Com o impressionante crescimento populacional, as áreas periféricas eram cada vez interessantes para a população mais pobre da cidade. A partir das décadas de 1950 e 1960, a região sul passou por um intenso processo de ocupação, com o desmembramento de antigos sítios e chácaras.

O Campo Limpo, por exemplo, era um humilde arrabalde da cidade de são Paulo, ocupado por colônias de imigrantes japoneses e italianos. Posteriormente abrigou um grande contingente de nordestinos, contribuindo para o adensamento da cidade. Os serviços de infraestrutura urbana vieram aos poucos. Segundo dados da Prefeitura Regional de Campo Limpo, o primeiro ônibus circulou no local em 1963, a energia elétrica chegou em 1958 e o calçamento das ruas foi feito em 1968.

Diversas vilas começaram a surgir na zona sul, com moradias de operários que chegavam de vários estados e do interior paulista para trabalhar em São Paulo e no polo industrial de Santo Amaro. Com o passar do tempo, a ocupação das áreas no entorno do centro urbano de Santo Amaro tornou-se cada vez mais desordenada e muitos loteamentos avançaram sobre as áreas de preservação ambiental.

Os arruamentos penetraram em áreas suscetíveis à erosão, enchentes e, de modo geral, inadequadas à urbanização. Com a falta de recursos, um grande número de famílias construiu as suas casas em lotes irregulares, o que pode ser observado no Grajaú e nos bairros do extremo sul, como também nos diversos bairros do distrito de M’Boi Mirim, a oeste de Santo Amaro, uma região marcada por suas inúmeras favelas.

Paraisópolis/André Labate Rosso, 2004/Museu da Cidade de São Paulo
Paraisópolis/André Labate Rosso, 2004/Museu da Cidade de São Paulo

 

A ocupação de Paraisópolis, onde se estima que vivam mais de 80 mil pessoas, retrata bem as rápidas transformações ocorridas nesta parte da cidade. O bairro teria surgido após o loteamento de uma antiga área rural. Suas terras passaram então a ser ocupadas por migrantes e trabalhadores pobres, que vinham tentar a sorte em São Paulo. Em poucas décadas, a paisagem se transformou radicalmente.