As cidades dentro da Cidade: Grupo Ururay explora o patrimônio da Zona Leste em livro

destaque

Capa do livro Territórios de Ururay/Grupo Ururay

A grande mobilidade urbana é um dos fatores que dificulta a preservação do patrimônio da Zona Leste. Os novos moradores não se identificam com a história da região e não reconhecem os bens culturais dela como seus. Esses e outros temas do patrimônio histórico são abordados no livro “Territórios de Ururay”, que apresenta e discute os bens históricos da Mooca, Penha, Itaquera e São Miguel Paulista.

O livro foi lançado na última quinta-feira (24/11) pelo Grupo Ururay, uma dos mais ativas organizações em prol da preservação do patrimônio na cidade. Desde 2014, promove seu trabalho de pesquisa e sensibilização patrimonial por meio de debates, exposições e roteiros históricos na cidade.

TERRITÓRIOS DE URURAY

O objetivo do livro é examinar os territórios “fragmentados” da zona leste por meio do levantamento de seus patrimônios e de seu significado histórico e cultural para a população local, revelando uma das “diversas cidades” que existem dentro da cidade de São Paulo, como coloca a publicação. A pesquisa do Grupo Ururay também resultou em uma exposição (até 31 de janeiro no Centro Cultural da Penha) e um minidocumentário, chamado “Territórios de Ururay”;

O livro e o vídeo conversam entre si. Enquanto o primeiro aborda a história e discute a preservação desses bens, o segundo retrata o esforço de moradores da região e coletivos artísticos para manter vivos os patrimônios da Zona Leste. Como na Vila Maria Zélia, onde as dramatizações do Grupo XIX de Teatro, a circulação de público e festas e outros eventos de arrecadação de verbas aumenta as relações de pertencimento ao lugar, além de discutir sua importância histórica.

“Entendemos que não é possível valorizar e preservar algo que não se conhece”, afirma o grupo, em referência ao esquecimento enfrentado pelos patrimônios da Zona Leste. Para o Ururay, todas as áreas da cidade possuem significado para seus habitantes, como é o caso de São Miguel Paulista, que ainda preserva algumas características da migração nordestina na década de 1970.

O grupo também afirma a importância do reconhecimento dessas áreas históricas para que elas não sejam descaracterizadas ou desapareçam em meio à constante transformação urbana.

INTEGRAÇÃO DO PATRIMÔNIO NA ATUALIDADE

A professora da Unifesp, Manoela Rufinoni, presente no lançamento, ressaltou em sua palestra a questão da mobilidade urbana. Os moradores recentes acabam não se sentindo parte da tradição histórica do bairro, manifestada em seus comércios antigos, famílias tradicionais da região e até mesmo praças e locais de grande relevância afetiva para a população mais estabelecida. Quando a identificação não ocorre, a valorização desses patrimônios, parte essencial de sua preservação, se torna mais difícil.

Uma das possíveis soluções para esse desafio, de acordo com Mônica Goulart, do Grupo Ururay, é o uso contínuo dos bens públicos e históricos da região por meio da reapropriação do patrimônio pelos recém-chegados. Como ocorre com a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos da Penha de França, construída por e para os escravos que eram proibidos de assistir às missas nas igrejas dos brancos.

igreja-n-s-do-rosario-dos-homens-pretos-da-penha-matcabral
Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos da Penha/MatCabral

Ao mesmo tempo em que a igreja mantém o uso desde a fundação, em 1802, ela recebe novas populações.  O espaço é utilizado tanto por grupos que promovem manifestações da cultura negra, como a Festa do Rosário, além de grupos sem conexão histórica com aquele patrimônio. É o caso da “Feira Cultural Pueblo Andino”, montada aos domingos no Largo do Rosário e muito frequentada pela comunidade boliviana, com grande presença na região da Penha. Durante a feira, as barracas comercializam comidas típicas, artesanatos e peças de roupas.

SERVIÇO:

Territórios de Ururay (2016). De: Grupo Ururay Patrimônio Cultural.
Copatrocínio e realização: Secretaria Municipal de Cultura/Movimento Cultural Penha.
Para adquirir um exemplar do livro, entre em contato com o grupo através do e-mail ururay.patrimonioleste@gmail.com, com cópia para movimentoculturalpenha@gmail.com

Exposição Fotográfica “Existências | Resistências”: Patrimônio Cultural da Zona Leste de SP
Centro Cultural da Penha – Largo do Rosário, 20
De 24/11/16 a 31/01/17, das 10h às 22h.