Butantã, Morumbi e Vila Andrade: bandeirismo, modernismo e brutalismo

Casa do Bandeirante/ Acervo PMSP

Casa do Bandeirante/Autor Desconhecido/ Acervo PMSP

Marcados por contrastes, o Butantã, o Morumbi e a Vila Andrade se desenvolveram principalmente após as obras de retificação e inversão do rio Pinheiros. Estes bairros abrigam tanto edificações em taipa de pilão, que remontam ao período colonial, como residências de alto padrão da arquitetura moderna. Durante as décadas de 1970 a 1990, a região foi um dos destinos das famílias mais ricas de São Paulo, e também das mais pobres.

Butantã

O Butantã se originou de uma sesmaria constituída em 1607, na qual foi instalado o primeiro engenho de cana-de-açúcar da então vila de São Paulo. Em 1750 suas terras foram doadas aos jesuítas, mas, com a expulsão deles nove anos depois, foram confiscadas pela Coroa portuguesa e vendidas. Pelo Butantã passava o Caminho para Sorocaba, uma rota usada por bandeirantes e jesuítas rumo ao interior de São Paulo.

Algumas pesquisas em andamento indicam que a Chácara da Fonte, área situada no Morro do Querosene e próxima ao Instituto Butantã, pode estar localizada próxima a um desses antigos caminhos, que, muitas vezes, coincidiam com os peabirus, trilhas indígenas muito antigas que conectaram o litoral paulista ao interior do continente.

A taipa de pilão foi a técnica construtiva predominante em São Paulo até o século 19. Consiste no apiloamento (compactação) do barro em formas de madeira. Na região do Butantã se localizam dois importantes remanescentes arquitetônicos que utilizam essa técnica: a Casa do Bandeirante e a Casa do Sertanista, erguidas entre os séculos 17 e 18. Ambas são bons exemplos das características das construções desta época: telhado de quatro águas, alpendres, pequenas janelas e planta retangular. Essas casas pertencem ao acervo do Museu da Cidade de São Paulo.

Casa do Sertanista/Sebastião de Assis Ferreira\/ Acervo PMSP
Casa do Sertanista/Sebastião de Assis Ferreira\/ Acervo PMSP

Em virtude de um surto de peste bubônica que ocorreu em Santos no final do século 19, foi necessário encontrar um local isolado para estudo e combate à doença. Por isso, em 1901, foi criado o Instituto Butantã, inicialmente chamado Instituto Serumtherapico, numa extensa área da Fazenda Butantã O edifício principal foi entregue em 1914 e é um dos remanescentes do art nouveau em São Paulo. Ainda no complexo do Instituto há o Pavilhão Lemos Monteiro, exemplar do ecletismo. Em 1915, o restante das terras foi vendida à Companhia City que tinha plano de urbanizar as margens do rio Pinheiros.

Instituto Butantan/R. H. Castilhos/ Acervo PMSP
Instituto Butantan/R. H. Castilhos/ Acervo PMSP

 

Uma das grandes intervenções ocorridas após a retificação do Pinheiros foi a construção da nova sede do Jockey Clube de São Paulo, em 1941. A transferência do bairro da Mooca para a Cidade Jardim colaborou com o desenvolvimento da região. Projetado pelo arquiteto Elisiário Bahiana, os edifícios do Jockey seguem a estética do art déco, com o emprego de estruturas e ornamentos de desenho geométrico. No Jockey há, também, quinze esculturas em mármore travertino realizadas por Victor Brecheret. Na década de 1950, passou por obras de ampliação realizadas pelo arquiteto francês Henri Sajous.

A Cidade Universitária, principal campus da Universidade de São Paulo, inaugurado em 1968, se localiza na extensa área remanescente da Fazenda Butantã, próxima ao rio. Nela está o edifício da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU), de 1969, projetado pelos arquitetos Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi, consiste em uma estrutura de concreto armado aparente que busca oferecer um espaço contínuo e de vivência para alunos e professores.

FAU USP/Fernando Stankuns
FAU USP/Fernando Stankuns

Morumbi

O Morumbi, cujo nome significa “morro ou colina muito alta”, segundo a versão mais aceita, era, por volta de 1815, uma fazenda de chá. Na década de 1940, foi parcelada pela Cia. Imobiliária Morumby e seus grandes lotes destinados à moradia de classes altas. A Capela do Morumbi é um remanescente da época da fazenda e hoje integra o acervo do Museu da Cidade de São Paulo. Suas ruínas de taipa de pilão passaram por restauro e a reconstrução foi realizada com alvenaria de tijolos e chefiada pelo arquiteto Gregori Warchavchik.

Durante o século 20, São Paulo passou por um intenso processo de expansão e verticalização que se iniciou com a industrialização e a imigração. Na década de 1950, o crescimento chegou à região do Morumbi e a elite que até então residia nos Jardins e na região da Paulista se mudou para o bairro. É deste momento a construção de casas modernas icônicas, como a Casa de Vidro, de 1951, projetada por Lina Bo Bardi, e a Residência Oscar Americano, de 1953, idealizada por Oswaldo Bratke.

Casa de Vidro/Matheus Carvalho Teixeira
Casa de Vidro/Matheus Carvalho Teixeira

O bairro possui ainda quatro imóveis importantes do movimento conhecido como brutalismo ou escola paulista: Casa Boris Fausto (projeto de Sergio Ferro, de 1961), Residência Paulo Mendes da Rocha (projeto de Paulo Mendes da Rocha e João de Gennaro, de 1964), Casa Nadir Zacharias e Casa José Roberto Filippelli (projetos de Ruy Ohtake, de 1970). O brutalismo foi uma corrente arquitetônica moderna que perdurou principalmente do pós 2ª Guerra Mundial até o final da década de 1970. Normalmente reconhecida pela estrutura de concreto armado aparente e o emprego deste material com maior expressividade plástica.

Residência Oscar Americano/Fernando Stankuns
Residência Oscar Americano/Fernando Stankuns

Em 1965 o Morumbi passou a abrigar a sede do Governo do Estado de São Paulo, que até então funcionava no Palácio dos Campos Elíseos, no centro da cidade. O Palácio dos Bandeirantes foi construído em 1950 e inicialmente iria abrigar uma escola de economia e administração idealizada pelo Conde Francisco Matarazzo Júnior, mas que nunca funcionou ali. Outro grande equipamento do Morumbi é o Estádio Cícero Pompeu de Toledo, inaugurado em 1970. Projetado por Vilanova Artigas, é uma grande estrutura de concreto armado aparente.

Estádio do Morumbi/Camerindo F. Máximo
Estádio do Morumbi/Camerindo F. Máximo

Vizinha do Morumbi, a Vila Andrade foi loteada na década de 1950 e, desde o início, abrigou residências simples e luxuosas. Estes dois bairros abrigam a favela de Paraisópolis, a segunda maior de São Paulo. Sua ocupação se iniciou na década de 1970 e também ocorreu em decorrência do crescimento acelerado da cidade, ao receber os trabalhadores da construção civil da região.

Aproveitando trechos da mata atlântica, que dominava a região até a década de 1950, os arquitetos modernistas envolveram suas criações com a vegetação nativa, visando ainda preservar a identidade nacional —uma das tônicas do movimento.

A preservação da mata nativa também está presente em dois parques do bairro. O Parque Alfredo Volpi, de 1970, em homenagem ao pintor, considerado um dos artistas mais influentes da segunda geração do Modernismo, e, na Vila Andrade, o Parque Burle Marx, de 1995. O projeto inicial integrava os jardins de Burle Marx a uma residência projetada por Oscar Niemeyer, que não chegou a ser construída.

Parque Burle Marx/Semilla Luz
Parque Burle Marx/Semilla Luz