Axé Ilê Obá, primeiro terreiro de candomblé tombado em São Paulo

Parte interna do Axé Ilê Obá/André Braga/DPH

Parte interna do Axé Ilê Obá/André Braga/DPH

Enquanto aguardava para entrevistar a yalorixá Paula Egydio, resolvi andar um pouco e conhecer o espaço do terreiro: o barracão amplo, que em horas de trabalho se enche com os membros da casa, estava vazio. Admirei a coroa de Xangô em seu centro, as paredes brancas que contrastavam com o piso de azulejos vermelhos e exibiam os quadros de orixás. Na época da escravidão o culto a essas entidades sofreu grande repressão e foi perseguido pela Igreja e o Estado. Agora, eu estava dentro do primeiro terreiro tombado em São Paulo, ou seja, reconhecido como patrimônio justamente por um órgão público.

Logo mãe Paula de Yansã chegou. Fomos até sua sala e nos sentamos, e ao começarmos a conversa seus olhos brilhavam enquanto me contava a história por trás da decisão da antiga yalorixá da casa, mãe Sylvia, de entrar com um pedido de tombamento no Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico).

A história do terreiro começou com pai Caio, filho de Xangô, orixá que mora nas pedreiras e é associado à justiça. Pai Caio fundou a casa em São Paulo, Vila Fachini na rua Azor Silva, 77, em 1975. O templo está lá até hoje, e enfrentou grandes injustiças e desafios para se manter em pé, mas pai Caio não desistiu: “Ele [pai Caio] sofreu os abusos da ditadura, foi acusado de feitiçaria”, disse Paula.

Pai Caio esteve no comando do Axé Ilê Obá por 10 anos. Antes de sua morte, em 1985, apontou sua sobrinha Sylvia Egydio, parente mais próxima, como a nova dirigente da casa.

“Ela fugia um pouco do terreiro, era uma mulher muito ocupada, achava que não conseguiria conciliar as tarefas”, me conta Paula, ao falar da mãe. Mas, após alguns problemas de saúde, Sylvia decidiu ter mais presença no terreiro e passou a ser treinada por pai Caio para ser yalorixá, embora ela não soubesse disso.

Pouco após sua posse, o terreiro enfrentou seu segundo grande desafio. Corria risco de ser vendido e demolido para que um mercado fosse construído ali. Sylvia dividia a posse do terreno com outros familiares, herdeiros legais de pai Caio que não eram ligados ao candomblé.  Para adquirir a posse integral do terreiro, mãe Sylvia de Oxalá, orixá ligado à estrutura física e mental, ofereceu em troca sua própria casa. Foi então que surgiu a ideia do tombamento para proteger o Axé Ilê Obá.

“Quando ela ouvia o não, fazia de tudo para conseguir o sim”, diz Paula, sobre o apoio que sua mãe conseguiu na comunidade local ao pedido de tombamento pelo Condephaat.

Coroa ao centro do barracão/André Braga/DPH
Coroa ao centro do barracão/André Braga/DPH

TOMBAMENTO

O tombamento foi concedido pelo órgão estadual devido à “importância das religiões de origem negra na formação da identidade cultural brasileira”, como afirma a resolução que decreta o tombamento do Axé Ilê Obá. Mãe Sylvia conseguiu preservar não apenas a estrutura do terreiro, mas também o exercício de sua fé.

Os tombamentos de terreiro como patrimônio cultural e imaterial começaram em Salvador (BA) como modo de proteger a cultura do candomblé, muito forte no estado, onde se localizam os templos mais antigos do Brasil. É o caso do terreiro de Gantois (Gantuá), fundado em 1849, e a Casa do Engenho Velho, primeiro monumento de cultura negra tombado no Brasil, em 1986, considerado como matriz de culto. Ou seja, um terreiro que “gerou” novos templos ao redor do país.

 Porém, o pedido de tombamento do Axé Ilê Obá gerou opiniões contrárias de alguns especialistas que duvidavam do parecer favorável do Condephaat, dizendo que se tratava de um “candomblé paulista” sem tradição. Na época, a antropóloga e  pesquisadora da USP Rita Amaral publicou um texto onde questionava essa visão, argumentando que o candomblé, assim como outras religiões de origem africana, fazem parte da história e cultura brasileiras há quase quatro séculos, independente de onde o terreiro está. “É em nome desses 400 anos que se tomba o Axé Ilê Obá. Em nome dos 400 anos de luta para sobreviver à repressão e a todo tipo de dificuldades que seus adeptos enfrentaram por toda parte”, afirmou a pesquisadora em seu artigo.

 Trinta anos depois, em 2014, um pedido de tombamento de 10 terreiros de candomblé foi aprovado pelo Conselho Estadual de Cultura da Bahia, como medida de proteção dos patrimônios culturais de Salvador.

Pai Caio de Xangô, fundador da casa, e Mãe Sylvia de Oxalá, responsável pelo tombamento do terreiro/Axé Ilê Obá/Divulgação
Pai Caio de Xangô, fundador da casa, e Mãe Sylvia de Oxalá, responsável pelo pedido de tombamento do terreiro/Axé Ilê Obá/Divulgação

UM CANDOMBLÉ MAIS JOVEM

Mãe Paula de Yansã, atual yalorixá do terreiro/Axé Ilê Obá/Divulgação
Mãe Paula de Yansã, atual yalorixá do terreiro/Axé Ilê Obá/Divulgação

Yansã, orixá das ventanias e cheia de energia, é o orixá de Mãe Paula, que aos 28 anos de idade é o retrato da nova fase em que as religiões afro brasileiras entram no Brasil, com mais jovens se interessando por sua prática e estudo. A democratização da informação pela internet facilita a quebra de preconceitos ligados às religiões afro brasileiras, e a aceitação da diversidade nos terreiros é um fato que atrai o olhar dos mais jovens.

“No Candomblé não ligamos para orientação sexual ou classe social, tudo o que pedimos é respeito e dedicação”, explica Paula, ao falar da casa que possui cerca de 200 filhos e filhas, como são chamados os seus membros. “Todos nós somos luz, som, espírito e matéria conectados a uma única matriz. Não temos o direito de negar a ninguém a possibilidade de reencontrar-se no universo espiritual não tangível”, dizem Paula e seu irmão, Péricles de Oxaguiã.

Em fevereiro, teve grande repercussão na mídia a notícia de que Raquel Pacheco, mais conhecida pela personagem Bruna Surfistinha, havia se tornado praticante da umbanda.

“O terreiro é um dos poucos lugares que eu me sinto Raquel mesmo. Nas correntes, os médiuns nunca faltaram com respeito comigo. Nunca me trataram como Bruna”, disse Raquel ao jornal “Folha de São Paulo” sobre a aceitação e acolhimento que encontrou no CIESL (Círculo de Irradiações Espirituais de São Lázaro).

O trabalho feito no candomblé não exige que ninguém abandone sua fé, nem obriga as pessoas a se converterem. “Atendemos muitos evangélicos também. Temos espaço para todos!”, dizem os irmãos do Axé Ilê Obá.

Hoje as religiões de matriz africana e seus seguidores têm mais liberdade e autonomia para se expressarem. De acordo com a pesquisa do Censo realizada em 2010, há cerca de 400 mil terreiros em todo o Brasil, mais de 100 mil apenas em São Paulo. Número que apresenta um crescimento desde a última pesquisa, de 2000, onde foram registrados 397.434 terreiros no Brasil e 79.119 em São Paulo.

Apesar disso, essas religiões ainda são alvos de ataques de intolerância e preconceito. Em setembro de 2015, um templo em Goiás foi incendiado e destruído, causando um prejuízo de R$ 100 mil. Felizmente, o templo estava vazio durante o incêndio, não houve feridos. As chamas foram apagadas pelo babalorixá da casa com ajuda de vizinhos.

“O fato do Axé Ilê Obá ser um bem tombado, e parte de uma cidade do tamanho de São Paulo, nos dá uma segurança maior”, diz mãe Paula, sorrindo. Mesmo assim, sempre pede aos filhos e filhas da casa que tenham cuidado.

Me despeço de mãe Paula e dos outros membros do Axé Ilê Obá, agradecendo pela entrevista. Na saída, penso que pena seria se um supermercado tivesse tomado o lugar do terreiro. Reflito sobre a importância da preservação do patrimônio para a manutenção da herança e diversidade cultural que nos torna quem somos, e sinto também um alívio pessoal, pois como praticante da umbanda, sinto que caminhamos para uma fase de maior tolerância no Brasil.