Cordão de ontem, bloquinho de hoje

O cordão do Camisa Verde e Branco. Criado por Dionísio Barbosa. Aqui vemos “Camponeses do Egito”. (USP Imagens)

O cordão do Camisa Verde e Branco, criado por Dionísio Barbosa. Aqui vemos “Camponeses do Egito”/USP Imagens

Não há exagero em dizer que o Carnaval de Rua de São Paulo explodiu nos últimos quatro anos, passando de meras 20 agremiações em 2012 para nada menos que 306 blocos em 2016. Essa nova expressão da folia retoma um costume do início do século passado: os tradicionais “cordões” que saiam em cortejos pelas ruas de bairros populares da cidade.

A maior parte dos novos blocos mantém a tradição de tocar marchinhas, ainda que hoje elas possam estar misturadas com ritmos como o rock, como é o caso do Bloco 77. O mais antigo é o Bloco Esfarrapado,que desfila no Bixiga desde 1947.

Um dos primeiros cordões de São Paulo foi criado na Barra Funda por Dionísio Barbosa em 1914. Esse cordão viria a ser, anos depois, a escola de samba Camisa Verde e Branco. A comemoração era feita no ritmo da marcha-sambada (uma mistura de marcha militar europeia com o samba de bumbo), e os foliões saiam uniformizados: usavam camisa verde, calça branca e chapéu de palha¹.

Os cordões eram pequenos e desfilavam pelas ruas de seus bairros, como a Barra Funda, Bixiga e Baixada do Glicério. Os temas musicais variavam desde marchinhas populares tocadas nas rádios até composições próprias, como essa composta por Dionísio e Luiz Barbosa:

Minha gente saia fora
Da janela venha ver
O Grupo da Barra Funda
Tá querendo aparecer
(2ª parte)
Cantamos todos
Com voz aguda
Trazendo vivas
Ao Grupo da Barra Funda¹

Cada folião costurava sua fantasia, tendo sempre em mente as cores de sua agremiação. Os materiais mais usados eram cetim, plástico e papelão pintado. Os calçados eram muito importantes nos desfiles, porque a ausência de sapatos remetia ao período da escravidão, quando escravos eram obrigados a andar descalços¹.

Já na avenida Paulista, a população mais rica comemorava o Carnaval desfilando em corsos carnavalescos. Em carros sem capotas e enfeitados, as moças jogavam flores e serpentinas enquanto a população se reunia nas calçadas para ver o desfile passar².

Corso de Carnaval na avenida Paulista em 1915 retratado na Revista “A Cigarra”, edição 25/02/1915/Arquivo Público do Estado de São Paulo

Naquelas primeiras décadas do século 20, o bairro do Brás, reduto de imigrantes europeus, também era um importante ponto de comemoração do Carnaval. Com o tempo, as celebrações no bairro passaram a ser prestigiadas por filhos de famílias da elite e eram visitadas por alguns corsos. Mais para a frente, os foliões do próprio bairro começaram a confeccionar desde carruagens simples a veículos mais luxuosos para desfilar pela avenida Rangel Pestana até o Largo da Concórdia.

A Lavapés, escola fundada em 1937 por Madrinha Eunice, é a mais antiga ainda em atividade. Já a escola pioneira no samba-enredo é a Nenê de Vila Matilde. Em 1955, seu Nenê assistiu o desfile do Rio de Janeiro e percebeu que sua escola poderia ter também um samba-enredo. Até então ela era apenas um cordão que possuía balizas e porta estandartes. No ano seguinte, 1956, a escola inovou e compôs um samba-tema baseado no livro “Casa Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre¹. Outra novidade do Carnaval paulistano daquele ano foi a presença de carro alegórico no desfile do Nenê de Vila Matilde.

Após a experiência de seu Nenê, nos anos 1960, o modelo de escola de samba carioca se estabeleceu em São Paulo. Ocorreram uma série de inovações e mudanças nos desfiles, na organização das agremiações carnavalescas e a prefeitura oficializou e passou a apoiar a realização do Carnaval³. Com isso, muitos cordões transformaram-se em escolas de samba, como a Vai-Vai e a Camisa Verde Branco. Houve também a introdução da ala das baianas e do samba-enredo como música oficial do carnaval.

Nos anos 1980, os sambas-enredos passaram por novas mudanças. Os temas musicais retratavam eventos cotidianos e valores comuns à população. Devido ao grande número de pessoas desfilando, as músicas foram cada vez mais aceleradas, chegando a 150 toques por minuto¹. Com as escolas de samba organizadas, se iniciou uma nova divisão de trabalho e especialização das funções e as fantasias passaram a ser confeccionadas pela escola e não pelos próprios foliões. Os materiais eram baratos e muitas vezes reciclados como cisal, palha, sementes, franjas, bordados e macramês¹.

Os desfiles organizados ocuparam primeiro a avenida São João, depois migraram para a Avenida Tiradentes. Até que, em 1990, foi inaugurado o sambódromo do Anhembi, com projeto de Oscar Niemeyer¹. A partir de então, a festa deixa as ruas e passa a ter mais infraestrutura, com arquibancada, espaço para os carros alegóricos, sala de imprensa etc. O carnaval começa a ser televisionado, patrocinado e ter a presença de celebridades, ficando cada vez mais luxuoso.

Escola de Samba Acadêmicos do Tatuapé desfila na Avenida Tiradentes/USP Imagens

Os portugueses que vieram ao Brasil trouxeram da Europa o costume de celebração do Carnaval com fantasias, embora a origem da festa remonte à Grécia Antiga. No Brasil do século 17 a  folia tinha brincadeiras como guerras de água, farinha e limões de cheiro. Com o tempo, nosso carnaval foi tomando uma forma própria, se tornando uma expressão da cultura brasileira. Indicação disso é que ritmos carnavalescos com o Frevo, o Maracatu Nação, o Maracatu de Baque Solto, as Matrizes do Samba e o Samba de Roda do Recôncavo Baiano são tombados pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Tradição (de Geraldo Filme)

Quem nunca viu o samba amanhecer
Vai no Bexiga pra ver
Vai no Bexiga pra ver
(Quem nunca viu)

O samba não levanta mais poeira
O asfalto hoje cobriu o nosso chão
Lembranças eu tenho da Saracura
Saudades tenho do nosso cordão

Bexiga hoje é só arranha céu
E não se vê mais a luz da lua
Mais o Vai-Vai está firme no pedaço
É tradição e o samba continua³

(1) Bruno Sanches Baronetti, 2013
(2) Marizilda de Carvalho, 2009
(3) Vanir de Lima Belo, 2008

Por Amanda Ferrarese
Colaborou Júlia Pinto