De campos de pastagem a moradia de barões do café e de operários: Luz, Campos Elíseos e Bom Retiro

Mosteiro da Luz em 1862/Autor desconhecido

Mosteiro da Luz em 1862/Autor desconhecido

Durante o período colonial, a região da Luz era ocupada por campos de pastagem de gado que se estendiam ao longo do antigo Caminho do Guaré. Foi apenas no século 19, com o crescimento da economia cafeeira e a construção das ferrovias Santos-Jundiaí e Sorocabana, que este território se urbanizou e passou a receber uma série de instituições e estabelecimentos comerciais.

O Caminho do Guaré partia do centro histórico rumo à região norte da cidade e a Minas Gerais. A região também deve seu desenvolvimento, e o nome, à construção da ermida (capela pequena) Nossa Senhora da Luz, ainda no século 17. Essa primeira igreja se localizava onde hoje está o Mosteiro da Imaculada Conceição da Luz, do final do século 18, projeto de Frei Galvão – uma das maiores obras em taipa de pilão de São Paulo. Do conjunto também fazem parte a Igreja da Luz, com sua rara planta em formato octogonal, o Convento Concepcionista e o Museu de Arte Sacra.

No início do século 19, em outra grande área ao lado do Caminho do Guaré, iniciou-se a implantação do primeiro Jardim Público de São Paulo, o atual Jardim da Luz. Concebido como um jardim botânico, com espécies exóticas, tornou-se um dos raros locais de lazer e passeio público para os habitantes da cidade nessa época. Abrigou uma torre elevada conhecida como Canudo do João Teodoro, governador que o construiu, cujo alicerce pode ser observado ainda hoje, próximo a outras construções, esculturas e elementos ornamentais instalados no início do século passado.

Jardim da Luz/Postal do início do século 20
Jardim da Luz/Postal do início do século 20

Outro conjunto religioso na Luz é formado pelo Seminário Episcopal e Igreja de São Cristóvão, construído em meados do século 19 em taipa de pilão. Enquanto o Mosteiro da Luz se encontra próximo ao que era na época de sua construção, o antigo Seminário Episcopal e Igreja de São Cristóvão foram sendo alterados no passar do tempo. No século passado a fachada do conjunto recebeu elementos neoclássicos e parte foi demolida para a abertura da rua 25 de Janeiro. Nas instalações do antigo Seminário passaram a funcionar lojas, em geral vinculadas ao comércio de vestidos de noiva que caracterizam a rua São Caetano.

A região se manteve muito pouco ocupada até a instalação da antiga São Paulo Railway, em 1867. Primeira linha férrea da cidade, ligava o porto de Santos a Jundiaí, e a estação construída nessa área tornou-se a mais importante de São Paulo. O edifício atual da Estação da Luz, de arquitetura eclética e com uma ampla gare em estrutura metálica, é o terceiro ali construído e foi terminado no início do século 20. Atualmente abriga, também, o Museu da Língua Portuguesa, em restauração após sofrer um incêndio.

Estação da Luz, após o incêndio de 1946/Sebastião Ferreira, 1946
Estação da Luz, após o incêndio de 1946/Sebastião Ferreira, 1946

A antiga Estrada de Ferro Sorocabana, importante conexão com a região de Sorocaba, foi inaugurada em 1875, no auge da produção cafeeira. A Estação Julio Prestes marca o início dessa ferrovia na cidade e é a segunda construção com essa função, inaugurada em 1936. Atualmente essa edificação monumental de arquitetura eclética abriga a sede da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, a Sala São Paulo – uma moderna sala de concertos musicais – e a Estação Júlio Prestes, da linha-8 da CPTM. Ao lado da estação há o antigo Escritório e Armazéns da Sorocabana, que abrigou, entre 1942 e 1983, o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) – um órgão de repressão especialmente violento durante o regime militar. Desde 2002, funcionam lá o Museu da Resistência e a Estação Pinacoteca.

Com o crescimento da cidade, houve a necessidade de construção de uma série de equipamentos públicos. Por ser próxima ao centro histórico, às ferrovias, às moradias da elite nos Campos Elíseos e a áreas de moradias populares, a região da Luz recebeu investimentos, tanto públicos como privados, destacando-se o período que se seguiu à República.

Na Luz, por exemplo, implantou-se, em frente à antiga Cadeia Pública, ainda na segunda metade do século 19, uma importante instalação militar para a cidade, o Quartel da Luz, na atual Avenida Tiradentes. Projetado pelo escritório de Ramos de Azevedo, já foi edificado com técnicas construtivas que passaram a predominar na cidade a partir desse período, em substituição à taipa, como alvenaria de tijolos e telhas tipo francesa. A Chaminé da Luz, remanescente da antiga e já demolida usina de energia que integrava o quartel, tornou-se uma referência na paisagem do bairro e tem marcas dos tiros de canhão que a atingiram na Revolução de 1924.

Avenida Tiradentes, entre 1901 e 1910. Ao fundo, a torre da Estação da Luz/Guilherme Gaensly
Avenida Tiradentes, entre 1901 e 1910. Ao fundo, a torre da Estação da Luz/Guilherme Gaensly

No âmbito educacional, um importante local é o conjunto das antigas instalações da Escola Politécnica, destacando-se as quatro edificações ecléticas, voltadas para a Praça Fernando Prestes, construída no final do século 19 e primeiras décadas do século 20. A partir da década de 1950, a escola foi sendo transferida para a Cidade Universitária, no Butantã, e as antigas edificações receberam o Arquivo Histórico de São Paulo e a Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec).

Outro espaço relevante para a educação técnica e artística, concebido em estilo neoclássico, é o edifício que abrigou, a partir de 1900, o Liceu de Artes e Ofícios. Desde 1905 ali se instalou, também, a Pinacoteca do Estado de São Paulo, além de outras instituições de ensino e cultura. Após seu tombamento em 1982 e com o projeto de modernização do edifício, coordenado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha na década de 1990, o edifício se torna de uso exclusivo da Pinacoteca.

No Bom Retiro, distrito vizinho da Luz, funcionou a Escola de Pharmacia, Odontologia e Obstetrícia, de 1905, em um edifício também em estilo neoclássico, que era o predominante na arquitetura institucional. Posteriormente o curso também foi transferido para a Cidade Universitária e, desde 1987, o prédio abriga a Oficina Cultural Oswald de Andrade. No bairro ainda se localiza o Colégio de Santa Inês, de 1907, com seus elementos art nouveau, em funcionamento até hoje.

Com a industrialização e a chegada de mão de obra imigrante, surgem as vilas de trabalhadores. Na Luz, duas se destacam. Uma é a Vila Economizadora, construída entre 1908 e 1915. Possui oito tipos de residência, adequadas às necessidades dos moradores, mas com a mesma linguagem arquitetônica: telhas de barro em estilo francês e fachadas com elementos decorativos em estuque ou argamassa.

Vila dos Ingleses em 1992/Marcia Alves
Vila dos Ingleses em 1992/Marcia Alves

A outra é a Vila dos Ingleses, construída pela São Paulo Railway Company, entre 1915 e 1919. Serviu de domicílio para os engenheiros ingleses que trabalhavam na Estação da Luz e na Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. O estilo arquitetônico das habitações tem inspiração vitoriana, mas com elementos coloniais brasileiros.

As linhas férreas instaladas na segunda metade do século 19 valorizaram as áreas próximas da Luz. Em 1878, Frederico Glete e Victor Nothmann lotearam uma antiga chácara, próxima às estações, que formou a área conhecida hoje como Campos Elíseos. O bairro foi planejado para a elite cafeeira paulistana que, devido à proximidade com a linha férrea e a ligação dela com o interior e com o porto, poderia deixar de morar nas fazendas e se estabelecer na capital, onde ocorriam as decisões políticas e econômicas.

O palacete mais imponente desse período, e que sobreviveu ao tempo, é a antiga residência de Elias Pacheco Chaves, de 1899, projetada pelo alemão Matheus Haussler. Entre 1915 e 1960 abrigou a sede do governo estadual e passou a ser conhecida como Palácio dos Campos Elíseos.

Palacete Elias Chaves/Guilherme Gaensly, 1901-1910
Palacete Elias Chaves/Guilherme Gaensly, 1901-1910

Dessa primeira fase de ocupação restaram outras antigas residências imponentes. Dentre elas, há o Casarão de Henrique Santos Dumont, de 1894, irmão de Alberto Santos Dumont. Construído com os materiais mais refinados da época, se insere no estilo eclético. Abrigou desde residência até os dormitórios do Colégio Stafford. Em 2002, passou por uma restauração e hoje abriga o Museu da Energia de São Paulo. Também de estilo eclético, o Casarão de Dino Bueno, de 1895, teve diversos usos e, desde 1975, pertence ao complexo de instalações da seguradora Porto Seguro.

Santuário do Sagrado Coração de Jesus e o Liceu Coração de Jesus, inaugurados em 1901, tiveram sua construção apoiada por membros da elite paulistana, como Veridiana Prado e o Conde Prates. Reúne grande variedade de obras de arte religiosa do início do século 20.

Enquanto os Campos Elíseos abrigavam as famílias mais abastadas, no Bom Retiro se fixaram operários e imigrantes. No início, o território desse bairro era local de descanso e lazer para a população. A partir da 1880, as chácaras que compunham a área foram loteadas. Paralelamente, e se aproveitando da sinergia da ferrovia, indústrias fixaram-se no local e, com elas, os imigrantes italianos e portugueses. O bairro recebeu, na década de 1920, uma massiva imigração de judeus, que abriram os primeiros estabelecimentos comerciais da área e um polo de confecções. A partir década de 1970, o bairro recebeu famílias coreanas, também dedicadas ao comércio de roupas.

Nesta época, devido à grande quantidade de pessoas chegando a São Paulo, houve a necessidade de desenvolver uma estrutura sanitária contra a proliferação de doenças endêmicas. Para isso foi construído o antigo Desinfectório Central, inaugurado em 1893. Desde 1965, funciona lá o Museu de Saúde Pública Emílio Ribas.