De vanguarda, Casa Modernista da rua Santa Cruz precisou de projeto “falso” para aprovação

Fachada da Casa Modernista, Vila Mariana, São Paulo/Geraldo Ferraz/1927

Fachada da Casa Modernista, Vila Mariana, São Paulo/Geraldo Ferraz/1927

Se hoje reconhecemos a arquitetura moderna como parte expressiva da cultura brasileira, em grande medida temos que agradecer a Gregori Warchavchik (1896-1972), que por meio de seu experimentalismo, pavimentou o caminho para a escola moderna no país. O arquiteto de origem ucraniana construiu em 1928, na Vila Mariana, a primeira casa modernista do Brasil.

Quando chegou ao Brasil, Warchavchik já possuía um repertório ligado a sua vivência na Europa, mas encontrou por aqui uma arquitetura ligada à economia do café, eclética. A construção da casa foi polêmica para a época. Sem ornamentos, composta por volumes brancos e limpos, fugia do padrão.

Para que fosse aprovado, o arquiteto entregou à prefeitura um projeto com cornijas e janelas emolduradas com inspiração colonial (veja imagem abaixo). Após a aprovação do projeto, Warchavchik construiu a casa sem os detalhes mencionados, alegando falta de recursos para completá-la.

Comparação do projeto original da fachada com a construção final/Geraldo Ferraz
Comparação do projeto original da fachada com a construção final/Geraldo Ferraz/1927

A área foi tombada em 1984 pelos órgãos de proteção de patrimônio em nível estadual, o Condephaat, e federal, o Iphan. Em 1991 foi tombado pelo Conpresp, municipal. Os primeiros tombamentos foram motivados por uma grande comoção da população do bairro que reagiu contra o anúncio da construção de um conjunto residencial no parque. O temor era mais o da perda da área verde, mas nesse processo, a importante casa foi definitivamente preservada.

Passeata pela preservação do Parque Modernista/José Nascimento/Folha de São Paulo/jan.1984
Passeata pela preservação do Parque Modernista/1984

PROJETOS DE RESTAURO

Desde sua construção, o conjunto passou por modificações. Em 1934 o próprio arquiteto conduziu uma reforma no imóvel. Ampliou cômodos como a sala de estar, que passou a avançar sobre a varanda, e substitui o telhado dessa varanda por uma laje, criando um terraço em volta dos quartos.

A Casa Modernista, um dos imóveis que faz parte do Museu da Cidade (que é uma divisão do DPH) passou por obras de recuperação nos períodos de 2000 a 2002, e 2004 a 2007. Em ambos os casos, o foco foi a casa principal.

planta

planta piso2
Plantas do térreo e piso superior, mostrando as alterações ocorridas com o tempo/1928 PMSP, 1927 (Planta de aprovação), FERRAZ, 1965 (Planta publicada), 1935-1984 GALVÃO, 1984 (Levantamento), 1984-2008 DPH, 2008 (Levantamento)

Agora há um novo projeto de restauro em estudo, com acompanhamento do DPH. Suas principais propostas são a adaptação dos acessos do jardim, dentro das normas de acessibilidade, o restauro das estruturas danificadas e mobiliário original da casa,  além da sua readequação para transformá-la em museu.

O projeto contempla também o restauro de parte do mobiliário que foi perdido, através de uma reconstituição com fotografias antigas. Os armários embutidos já passaram por esse processo nas primeiras obras: foram redesenhados, mantendo sua estrutura e adaptando o seu uso para a proteção do acervo que a casa receberá futuramente.

Luis Magnani, arquiteto da Restarq Arquitetura Restauração e Arte, escritório responsável pelo projeto, lembra que a área onde hoje é o parque era, na época, o quintal de uma residência particular, portanto não havia exigências de um projeto acessível. Os caminhos de acesso ao parque foram construídos com pedras rústicas, além de possuírem escadas entre os diferentes níveis. Com o passar do tempo, essas pedras se desgastaram e foram danificadas pela erosão. É preciso nivela-las em relação ao solo e eliminar a distância entre elas. As escadas serão mantidas e rampas serão adicionadas nas áreas próximas.

Planta do parque com caminhos de acesso traçados em vermeho/Luís Magnani/Restarq
Planta do parque com caminhos de acesso traçados em vermeho/Luís Magnani/Restarq

Devido à importância da casa para a arquitetura brasileira, todo o processo de restauro será documentado e, futuramente, exposto para os visitantes.

SERVIÇO
Rua Santa Cruz, 325 – Vila Mariana, Zona Sul, São Paulo.

Visitação
Horário de funcionamento: terça a domingo, das 9h às 17h.

Entrada
Gratuita