Retificação de riacho no Parque da Independência/Aurélio Becherini/c. 1910

O Ipiranga está entre os bairros mais antigos da cidade de São Paulo. Servia como uma espécie de pouso onde tropeiros e viajantes em geral paravam antes de tomarem o antigo Caminho de Santos (clique aqui para ver o  vídeo do DPH sobre esse trajeto), que passava por ali e era cortado pelo córrego do Ipiranga. Seu desenvolvimento como bairro, no entanto, só foi impulsionado com a construção do edifício-monumento conhecido como Museu do Ipiranga e com as obras de urbanização que acompanharam seu projeto.

Ipiranga abrigou indústrias desde o final do século 19. No século seguinte, elas se expandiram devido à proximidade com a linha férrea Santos-Jundiaí, que cruzava o bairro. Em menos de trinta anos, lá já se empregavam cerca de sete mil operários, distribuídos entre dezenove fábricas. Com tamanho crescimento foram construídas desde moradias para trabalhadores até palacetes de famílias abastadas, como as residências da família Jafet. A família de origem libanesa possuía uma tecelagem no bairro e palacetes nas ruas Bom Pastor e Costa Aguiar. Os edifícios desta época são representantes do ecletismo, com influência do neoclássico e detalhes mouriscos.

Residência da Família Jafet/L. Santana de Lemos
Residência da Família Jafet/L. Santana de Lemos

O vizinho Sacomã também teve sua urbanização impulsionada pela indústria. Por volta de 1890, os irmãos franceses Sacoman fixaram-se no lugar e constituíram uma fábrica de telhas francesas, cujas atividades começaram em 1910. Associados aos irmãos Falchi —personagens da fundação da Vila Prudente—, foram expoentes da olaria paulistana.

Parte dos operários que trabalhavam no Ipiranga e no Sacomã escolheram a área da antiga fazenda do capitão André Cursino para morar. Essa fazenda foi loteada no final do século 19 e originou o distrito do Cursino, dentro do qual está o bairro Jardim da Saúde, projetado pelo engenheiro-urbanista Jorge de Macedo Vieira. No distrito ficam o Jardim Zoológico de São Paulo e o Zoo Safari (antigo Simba Safari).

Vista do Parque do Estado, vê-se o Zoológico, Observatório Astronômico e Orquidário do Estado, 1973/Edison Pacheco Aquino
Vista do Parque do Estado. Observa-se o Zoológico, Observatório Astronômico e Orquidário do Estado, 1973/Edison Pacheco Aquino

O caminho de Santos, que passava pela região, era um dos mais antigos da cidade. Acompanhou o curso de trilhas indígenas para vencer a Serra do Mar e possibilitou o acesso dos portugueses ao planalto de Piratininga, entre eles os padres jesuítas que, sob o comando de José de Anchieta construíram um colégio, marco da fundação da cidade cuja reconstrução no centro de São Paulo é mais conhecida como Pátio do Colégio. Até hoje há resquícios desse caminho, como um marco quilométrico próximo ao número 375 da rua Silva Bueno (antiga Estrada nº 3) e, já fora de São Paulo, a calçada do Lorena, que é como o caminho passou a ser chamado depois de receber um calçamento de pedras. No trecho que corresponde ao Cambuci, havia o córrego do Lavapés (canalizado sob a rua de mesmo nome), assim nomeado porque nele os viajantes limpavam os pés enlameados da subida da serra, e seus animais bebiam água. O trecho final do caminho de Santos em São Paulo é marcado por uma árvore conhecida como Figueira das Lágrimas, local onde os viajantes se despediam dos familiares antes de seguir viagem para o litoral.

Árvore das Lágrimas, 1912/Autor desconhecido
Árvore das Lágrimas, 1912/Autor desconhecido

Ao longo do caminho de Santos se formaram povoações, entre elas a da região conhecida hoje como Cambuci. Durante o período colonial a paisagem da área era composta por chácaras e pousos para viajantes. No final do século 19 a antiga Chácara da Glória foi loteada e houve a construção da Capela Nossa Senhora de Lourdes, origem da atual Igreja da Glória

Enchente do Rio Tamanduateí Ao fundo Igreja Nossa Senhora de Fátima, no bairro do Glicério, 1910/Acervo PMSP
Enchente do Rio Tamanduateí. Ao fundo Igreja Nossa Senhora de Fátima, no bairro do Glicério, 1910/Acervo PMSP

Com a crescente urbanização e a forte imigração houve a necessidade de investir em educação e assistência a crianças abandonadas. Até então as ordens religiosas eram responsáveis por prestar esses serviços. No Ipiranga essas escolas impulsionaram a ocupação do bairro e a abertura da avenida Nazaré, uma de suas principais vias. Grande parte delas está em terrenos doados pelo conde José Vicente de Azevedo. São edifícios de arquitetura eclética com inspirações no neoclássico. São exemplos o Internato Nossa Senhora Auxiliadora (1903), o Educandário Sagrada Família (1903) e o Instituto Cristóvão Colombo (1930). Os dois primeiros são projetos do escritório Ramos de Azevedo. 

Educandário Sagrada Família, 2015/Dornicke
Educandário Sagrada Família, 2015/Dornicke

Ramos de Azevedo foi um arquiteto com obra extensa e marcante em São Paulo. Seu escritório projetou e construiu desde residências até grandes edifícios institucionais. No Ipiranga, além das instituições citadas, há outras obras do escritório, como o Grupo Escolar São José, de 1926, e os edifícios que abrigariam o Juvenato Santíssimo Sacramento, de 1929. O antigo Noviciado Nossa Senhora das Graças Irmãs Salesianas (1920), o Colégio São Francisco Xavier (1932) e as antigas edificações do Seminário Central da Imaculada Conceição são obras de outros arquitetos, mas também representam a arquitetura eclética predominante neste conjunto de instituições assistenciais e de ensino.

Antigo Noviciado Nossa Senhora das Graças, Irmãs Salesianas Guia de Bens Culturais
Antigo Noviciado Nossa Senhora das Graças, Irmãs Salesianas/Guia de Bens Culturais

O Ipiranga é conhecido como cenário da proclamação da Independência do Brasil. Em 1895 foi inaugurado no bairro o Museu Paulista, um edifício neoclássico projetado pelo italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi e construído por Luigi Pucci. Nos fundos do Museu há um bosque com fauna e flora diversa que conserva espécies atualmente em processo de extinção, como as árvores cabreúva, grumixama e palmito-juçara. O Parque da Independência compõe a área envoltória do museu e lá também fica o Monumento à Independência, de 1926. No interior do parque existe uma edificação cujo primeiro registro é de 1844, de estrutura de taipa de mão e composição de uma casa rural convencional. É chamada de Casa do Grito. O Monumento à Independência e a Casa do Grito integram o acervo do Museu da Cidade de São Paulo, pertencente à prefeitura.

Monumento à Independência, 2010/Rodrigo Soldon
Monumento à Independência, 2010/Rodrigo Soldon
Casa do Grito, 1973/Edison Pacheco Aquino

Pode-se dizer que o bairro da Aclimação surgiu a partir da constituição de um parque onde antes havia o Sítio Tapanhoim. Em 1892, o médico e político Carlos Botelho, dono daquelas terras, instalou ali o primeiro zoológico paulistano e o primeiro posto zootécnico do país. A área foi vendida em 1939 para a Prefeitura, que implantou lá o Parque da Aclimação. Diferente de muitos bairros que se desenvolveram no entorno de igrejas, a Igreja da Aclimação foi inaugurada só em 1940, quando a região já se encontrava urbanizada.

 

 

O antigo Caminho de Santos e a história do Ipiranga e região