Pico do Jaraguá/Flávio Jota de Paula

Atividades agrícolas e  de mineração de ouro estão presentes na região se estabeleceram na região de Pirituba, Anhanguera, Perus, São Domingos e Jaraguá já no século 16. O início da urbanização ocorreu no século 19, com a chegada da primeira linha ferroviária no Estado, a antiga São Paulo Railway (atualmente a linha 7-Rubi da CPTM). Essa urbanização ganhou maior impulso a partir do século 20, com a chegada de indústrias como a Companhia Brasileira de Cimento Portland e o Frigorífico Armour.

Ponte ferroviária sobre rio Tietê, ainda não totalmente retificado/Ivo Justino, 1970/Acervo PMSP

A região, próxima da Serra da Cantareira, é rica em parques e é a segunda maior área verde de São Paulo (o distrito de Parelheiros fica em primeiro lugar). Há referências e achados arqueológicos que indicam a presença de grupos humanos nessa área antes da chegada dos portugueses. Desde meados do século 20, duas aldeias guaranis se localizam no Parque Estadual do Jaraguá. O Parque foi considerado pela Unesco, em 1994, como núcleo que integra a Reserva de Biosfera da Mata Atlântica, em São Paulo. Além do próprio Pico do Jaraguá — o ponto mais alto da cidade, com 1.135 metros de altura —, há remanescentes da Mata Atlântica e uma casa que pertenceu ao bandeirante Afonso Sardinha.

Outro importante parque na região é o Parque Anhanguera, um dos maiores da cidade, que se originou da fazenda de reflorestamento Santa Fé. A área verde é cortada por trecho remanescente da antiga Ferrovia Perus-Pirapora, que transportava o minério extraído em Cajamar, no interior de São Paulo, até a Fábrica de Cimento Portland, em Perus, situada de forma estratégia perto da antiga ferrovia São Paulo Railway.

Ponte Anhanguera cruzando Rio Tietê, 1952/Sebastião de Assis Ferreira
Ponte Anhanguera cruzando Rio Tietê, 1952/Sebastião de Assis Ferreira

Por muito tempo a região foi ocupada por fazendas de café e plantações de cana-de-açúcar. Da grande propriedade do Coronel Anastácio de Freitas Trancoso, do início do século 19, surgiram os loteamentos que originaram os bairros de Pirituba e São Domingos.  A Fazenda do Anastácio, como ficou conhecida, foi adquirida na primeira metade do século 19 pelo Brigadeiro Tobias de Aguiar e sua esposa, Maria Domitila de Castro, a Marquesa de Santos.  Em 1917, os herdeiros do casal venderam a fazenda para o Frigorífico Armour do Brasil, que construiu uma grande unidade produtiva, próxima ao rio Tietê. Na segunda metade do século 20, parte dessas terras foi adquirida e urbanizada pela Companhia City.

Quem passa pela marginal Tietê, próximo ao acesso à rodovia Anhanguera, observa uma grande e abandonada edificação em estilo missões (colonial espanhol) conhecida como Casarão do Anastácio. Apesar do nome, o coronel nunca residiu neste edifício, construído em 1920 para abrigar uma hospedaria para funcionários da Companhia Armour. O nome se deve, na verdade, ao fato desse casarão ter sido construído no lugar onde antes ficava a casa-sede da antiga fazenda que pertenceu ao Coronel Anastácio.

Casarão do Anastácio, 2010/Viviane Shinzato
Casarão do Anastácio, 2010/Viviane Shinzato

Durante o século 20, a região foi destino de indústrias. No início, elas se instalaram nas proximidades da ferrovia e, depois, ao longo das rodovias Anhanguera e Bandeirantes, se posicionando estrategicamente para a distribuição de sua produção. O estabelecimento dessas indústrias foi fundamental para o desenvolvimento da região, pois com elas se formaram vilas e bairros de trabalhadores.

Destaca-se na região o papel histórico da Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus S.A., a primeira fábrica de cimento do Brasil, que deu origem ao bairro de Perus e que abrigou uma importante e longa mobilização de seus operários por melhores condições de trabalho e por qualidade ambiental na década de 1960. A fábrica e seu entorno constituem, de acordo com o Plano Diretor da cidade, um Território de Interesse da Cultura e da Paisagem (TICP), o que significa que lá existem um conjunto de referências culturais, tanto materiais como imateriais, importantes para a memória e identidade da cidade. Próxima à fábrica está o Cemitério de Perus, onde foram descobertas ossadas de vítimas da ditadura militar.

Prédios da Fábrica de Cimento de Perus, Vila Inácio/Humberto do Lago Müller

Outro patrimônio relacionado às indústrias da área é a Sociedade Holandesa de São Paulo Casa de Nassau, que abrigou um clube de campo vinculado aos imigrantes holandeses na cidade. Este imóvel vincula-se ao processo de ocupação do bairro e à presença de imigrantes ingleses e holandeses que trabalharam na ferrovia e nas indústrias de Pirituba.  

Há também em Pirituba a Vila Inglesa, local de moradia dos funcionários da São Paulo Railway. Lá fica o Castelinho de Pirituba, antiga residência de Charles Thomas Chapman, funcionário dessa ferrovia. É uma construção de alvenaria de tijolos de barro de meados da década de 1930, inspirada na arquitetura rural inglesa oitocentista. Hoje faz parte de um condomínio com dois altos edifícios residenciais, próximo à avenida Raimundo Pereira de Magalhães, a antiga estrada velha de Campinas.

Rodovia dos Bandeirantes e Vila Pirituba vistas a partir do Pico do Jaraguá/Flávio Jota de Paula
Rodovia dos Bandeirantes e Vila Pirituba vistas a partir do Pico do Jaraguá/Flávio Jota de Paula

A Vila Jaguara é outro bairro da região que teve seu desenvolvimento ligado ao desenvolvimento industrial. No entanto, diferente dos outros, nesse bairro a rodovia, e não a ferrovia, foi o principal propulsor de crescimento. A ocupação da área aconteceu a partir da década de 1920, quando Antônio Pinheiro de Ulhoa Cintra e Henrique Beaurrepaire lotearam parte do sítio Gama. Inicialmente o bairro foi ocupado por trabalhadores das indústrias, como a Armour, localizadas em Pirituba e São Domingos.

Apesar da presença de grandes indústrias, a região de Pirituba foi praticamente esquecida por décadas. Não havia estrutura básica, como água encanada, ruas asfaltadas e rede de saneamento básico na maioria das ruas e residências. Nos anos 1960, os moradores de Pirituba, descontentes com a falta de investimentos públicos em saneamento, água encanada e pavimentação na maior parte das ruas, realizaram um plebiscito para a emancipação do bairro. Apesar de não terem alcançado a quantidade necessária de votos, a mobilização resultou em investimentos na região.

 

Entre o pico e a ferrovia: história de Jaragua, Anhanguera, Pirituba, Perus, Jaguara e São Domingos