Casa das Calderias, 2010/Felipe Lange Borges

Pela região que hoje conhecemos como Barra Funda e Lapa passava o Caminho de Campinas, ocupado por chácaras. A via em direção ao interior partia do centro e seguia por onde hoje estão as avenidas São João e Francisco Matarazzo, até alcançar a atual rodovia Anhanguera, e foi um dos fatores de desenvolvimento dessa região.

As indústrias foram outro elemento importante na consolidação desses bairros. No mais antigos, Lapa e Barra Funda, elas remetem ao início da industrialização, na segunda metade do século 19, e se relacionam ao traçado das ferrovias. Já nas áreas da Vila Leopoldina e Jaguaré, próximas a rodovias e às marginais, as fábricas chegaram na segunda metade do século 20.

O território da Barra Funda compunha a Chácara do Carvalho, da qual restou um palacete de arquitetura com elementos neoclássicos, antiga residência do Conselheiro Antônio Prado, do final do século 19. Foi projetado pelo italiano Luigi Pucci, que também projetou o Museu do Ipiranga. A edificação hoje funciona como uma escola particular.

Outras residências de referência na Barra Funda são o famoso Castelinho da rua Apa, de 1917, e a Casa de Mário de Andrade, de 1920.

Teatro São Pedro, inaugurado em 1917 como palco para montagem de importantes peças teatrais ainda hoje abriga espetáculos de música e canto lírico.

Chácara do Carvalho, entre 1901 e 1910/Guilherme Gaensly

Mas a Barra Funda é frequentemente lembrada por seu patrimônio industrial e a relação com as ferrovias. A região é cortada por duas importantes linhas férreas: as antigas Sorocabana e Santos-Jundiaí, que hoje são, respectivamente, as linhas 8-Diamante e 7-Rubi da CPTM. A instalação delas estimulou a ocupação por indústrias e seus operários. Ambas foram construídas na segunda metade do século 19, no auge da economia cafeeira.

No início do século 20 a região foi ocupada por indústrias, e talvez a mais conhecida seja o complexo das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo (IRFM). Desse conjunto restou apenas a Casa das Caldeiras, que hoje abriga um centro cultural. Nas proximidades da Casa das Caldeiras há o SESC Pompéia, outro remanescente do primeiro período industrial. A antiga fábrica de tambores recebeu uma intervenção desenvolvida pela arquiteta Lina Bo Bardi, em 1986.

Memorial da América Latina, 2014 - Nselmo
Memorial da América Latina, 2014/Nselmo

Os operários das fábricas daquele momento eram principalmente imigrantes europeus, que se instalaram em vilas operárias, normalmente construídas próximas às indústrias. Contudo, havia também na Barra Funda uma grande concentração de negros que trabalhavam nas fábricas e no comércio. Esses dois grupos criaram os primeiros cordões carnavalescos, que originaram o que conhecemos hoje como blocos de carnaval e escolas de samba. As apresentações tinham como destino o Largo da Banana e, para alguns estudiosos, o samba paulistano nasceu ali. Não se sabe bem onde se localizava o largo da Banana, mas especula-se que ficava na região próxima ao Memorial da América Latina. Este local, inaugurado em 1989, foi pensado para integrar política e culturalmente o Brasil e países sul-americanos. O projeto arquitetônico ficou a cargo de Oscar Niemeyer, que concebeu um espaço funcional que pudesse abrigar eventos de diversos portes.

Outro conjunto importante para a região foi o Parque Doutor Fernando Costa, mais conhecido como Parque da Água Branca,fundado em 1929 como centro de estudos agrícolas. Possui edifícios em estilo normando, projetados e construídos pelo engenheiro Mário Wathely, e abriga feiras e exposições de animais.

Vila Savóia, 2009 - André Deak
Vila Savóia, 2009/André Deak

Lapa

No século 17, a região que hoje chamamos Lapa pertencia a uma sesmarias dos jesuítas. O bairro só viria a se desenvolver em meados do século 19, com o início da industrialização.

As primeiras fábricas a chegarem foram as olarias, instaladas nas proximidades do rio Tietê. Com a construção das estradas de ferro Santos-Jundiaí, “Inglesa”e Sorocabana, as indústrias passaram a se instalar ao longo do eixo ferroviário, tal qual ocorreu na Mooca e Barra Funda. Algumas fábricas dessa época ainda estão em funcionamento, como a Vidraria Santa Marina, inaugurada no final do século 19, e a Companhia Melhoramentos, do início do século 20. A partir daquele momento, a Lapa também começou a se firmar como um centro comercial, ao receber uma parada intermediária da estrada de ferro Santos-Jundiaí.

Algumas edificações fabris tiveram seu uso alterado, como pode se observar ao percorrer a rua Guaicurus. Nessa rua há a agência do Poupatempo da Lapa, a prefeitura regional da Lapa, instalada no antigo Tendal da Lapa, e as antigas instalações da Estação Ciência. Todos esses equipamentos estão instalados em galpões fabris do século 19 e início do século 20.

Estação Ciência/Dornicke
Estação Ciência/Dornicke

Além de trabalharem nas fábricas, os imigrantes também abriram os primeiros estabelecimentos comerciais. Até hoje há nesse bairro um importante centro de comércio do início do século 20, localizado nas proximidades da Igreja Nossa Senhora da Lapa, e o Mercado Municipal da Lapa, inaugurado em 1954.

Mercado Municipal da Lapa, 2012 - Dornicke
Mercado Municipal da Lapa, 2012 – Dornicke

Desde o início de sua ocupação, a Lapa foi um bairro de uso misto, com indústrias, comércio e moradia. Diversas instituições religiosas e de assistência se instalaram na região. No âmbito religioso, além da Igreja Nossa Senhora da Lapa, há a Igreja São João Maria Vianney, de 1932, na praça Cornélia. Há também as entidades de benemerência e associativas, como a Sociedade Beneficente União Fraterna, inaugurada em 1934 e ainda em funcionamento, e o Instituto Rogacionista, fundado em 1969, instalado em uma antiga residência de diretor da Vidraria Santa Marina. Os dois edifícios seguem o estilo eclético.

Edifício da Sociedade Beneficente União Fraterna, em 2006Andressa Maria Oliveira
Edifício da Sociedade Beneficente União Fraterna, em 2006/Andressa Maria Oliveira
Paróquia São João Maria Vianney, 2017 - Dornicke
Paróquia São João Maria Vianney, 2017/Dornicke

Do ponto de vista cultural, se formou a banda Corporação Musical Operária da Lapa, em 1881, cuja sede é tombada. Era composta por imigrantes italianos que trabalhavam para a “São Paulo Railway”. É considerada a banda mais antiga da cidade.

Na Lapa localizam-se alguns relevantes exemplares da arquitetura escolar paulistana como o Colégio Anhanguera, construído em 1911 e projetado pelo arquiteto italiano Giovanni B. Bianchi;  a Escola Estadual Pereira Barreto no cruzamento das ruas Clélia e Pio XI; e na área da Lapa de Baixo, o Colégio Guilherme Kuhlmann.

Escola Estadual Pereira Barreto, 2014 - Dornicke
Escola Estadual Pereira Barreto, 2014/Dornicke

O território da Lapa compreende uma área extensa e sua ocupação não ocorreu de forma homogênea. Uma porção dessa região foi loteada e projetada pela Companhia City, na década de 1920, dando origem à City Lapa e Bela Aliança. Desde sua origem esses bairros foram abrigaram residências de alto padrão, destinadas às classes média e alta. Seu traçado viário e tamanho de lotes seguem o conceito de bairro-jardim.

Vila Leopoldina e Jaguaré

Diferente da Lapa e Barra Funda, a ocupação da Vila Leopoldina e Jaguaré remete a um momento mais recente da industrialização no Brasil. O governo de Juscelino Kubitschek, na década de 1950, buscou investir em áreas como transporte, energia, setor alimentício, indústrias de base e educação. Em São Paulo, foi incentivada a construção e instalação de grandes indústrias ao longo de rodovias e marginais.

Praça Apecatu, ao fundo Ceagesp, 1970/Ivo Justino

Durante o período colonial, o território da Vila Leopoldina integrava a mesma sesmaria da Lapa. Começou a ser loteada em 1894 pela E. Richter & Company e recebeu o nome de uma das sócias dessa empresa. Mas o bairro só prosperou de fato após a década de 1950, com a construção do Centro Industrial Miguel Mofarrej e da Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo), em 1969.

Mirante do Jaguaré, 2008/Dornicke
Mirante do Jaguaré, 2008/Dornicke

O Jaguaré se desenvolveu como um bairro tipicamente operário, por volta de 1935. O responsável pelo loteamento foi Henrique Dumont Villares, que propôs áreas residenciais, industriais e comerciais. Um dos locais de interesse histórico do bairro é o Mirante do Jaguaré. Trata-se de uma torre de 28 metros de altura que permite visão de 360° do entorno. Construída nos primórdios do distrito, serviria como farol para navegação dos rios Tietê e Pinheiros e abriga um grande relógio. Nos anos seguintes o Jaguaré atraiu diversas indústrias, entre elas a Cooperativa Agrícola de Cotia e a Bunge.

 

Industrialização em São Paulo e o desenvolvimento da Barra Funda, Lapa, Vila Leopoldina e Jaguaré