Lições do Art Nouveau “são cada vez mais relevantes”, diz Maria Lúcia Bressan, da FAU-USP

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Hall da Vila Penteado, atual FAU-Maranhão/”Guia de bens culturais da cidade de São Paulo”

O Art Nouveau buscou unir as novas tecnologias do início do século 20 e as particularidades do trabalho artesanal para romper com os estilos históricos. No Brasil, foi aplicado em palacetes e edifícios públicos, porém poucos imóveis que adotavam o estilo de forma integral resistiram ao tempo. Apesar dessa produção reduzida, para a professora da FAU-USP Maria Lucia Bressan Pinheiro, a qualidade espacial, o cuidado nos detalhes, e a inserção urbana dos edifícios Art Nouveau paulistanos ganham nova importância em um momento em que esses valores estão em baixa. “As contribuições do Art Nouveau para a qualidade do espaço urbano de uma cidade não podem ser consideradas irrelevantes”. Leia abaixo a entrevista que a pesquisadora concedeu ao Blog do DPH no edifício que sedia a pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da USP: a Vila Penteado, em Higienópolis, um dos raros imóveis no estilo em São Paulo.

 

Blog do DPH – Por que em SP temos tantos edifícios Art Déco e tão poucos Art Nouveau?
Maria Lúcia Bressan Pinheiro: São dois movimentos bastante diferentes formalmente. O Art Déco é mais despojado, é uma ornamentação geometrizada. O Art Nouveau acontece na virada do século [19 para o 20] e dura pouco. Aqui no Brasil as datas são diferentes, mas na Europa ocorre praticamente só a primeira década do século 20 e depois logo desaparece. Parece que deu uma saturou. O Art Déco dura muito mais, e vai ser aqui no Brasil muito mais abrangente.  Acho que eles têm semelhanças no sentido de que ambos são estilos, ou seja, estão vinculados a determinado sistema de linguagem formal bastante definida. E nesse ponto eles têm em comum a questão do ornamento ser uma coisa importante, a presença de formas de projetar à moda da Escola de Belas Artes de Paris, com simetria, organização em alas, mas eles têm objetivos e nascem em circunstâncias diferentes.

Quais são esses objetivos diferentes?
Para o Art Nouveau, a bibliografia usualmente destaca que foi uma tentativa de criar um estilo novo, para um novo momento. Até então estavam em vigor os estilos historicistas: neogótico, neoclássico, neo-renascimento, neobizantino. Enfim, essa revivescência de formas de estilos anteriores. Havia um questionamento sobre por que naquele momento do século 19 não conseguiam criar suas formas próprias. O Art Nouveau foi essa tentativa. O Art Déco já é algo que vem depois das vanguardas arquitetônicas, da Bauhaus, em paralelo com Le Corbusier, quando o modernismo já estava se configurando. Mas o Art Déco já bebe das fontes modernas, mas não perde esse viés de estilo. Tanto que ele se manifesta de formas muito variadas. O Art Déco se vale da geometrização, da estilização, mas existem estilizações do clássico, do gótico. E tem aproximações com o que August Perret, um dos vanguardistas da virada do século, estava fazendo. E aproximação com a própria Bauhaus. Você olha a produção de arquitetos como Robert Mallet Stevens: são Modernas ou Art Déco? Então o Art Déco já vem num momento em que existem fontes de inspiração diferentes, modernas. Mas é um modernismo não radical. Ele continua a se valer muitas vezes das formas de projetar simétricas, em alas, não vai a fundo à discussão que o modernismo está propondo.

Você falou da tentativa dos artistas do Art Nouveau romperem com a academia e o historicismo, eles de fato conseguiram fazer isso?
Pois é, acho que eles conseguiram nas formas, na superfície. Mas eu acho que não, inclusive não da pra fazer uma mudança desse tipo, uma mudança que é cultural na verdade, assim como um ato de desejo seu, apenas por sua vontade. Essas manifestações culturais estão sedimentadas na cultura geral como um todo, você não muda isso de uma forma ampla apenas porque um grupo de pessoas decide. Então, nesse sentido, o Art Nouveau não teve esse papel de ruptura. Colocou questões novas, mas acabou não desenvolvendo ele próprio essas questões, até porque logo depois vem a 1ª Guerra Mundial, que atrapalha isso.

O professor Júlio Katinsky especula que um dos motivos de o Art Nouveau não ter se estabelecido foi a ausência de uma proposta urbanística, diferente do modernismo*. Você concorda?
Eu concordo, mas você precisa ver também que o Art Nouveau, por conta do contexto europeu da guerra, foi interrompido. O Modernismo consegue essas conquistas, mas ao longo de décadas.

Por que há poucos exemplares de Art Nouveau na cidade?
Temos essa ideia de que o Art Nouveau aqui em São Paulo tem só dois ou três exemplares. Esses são os exemplares castiços, vamos dizer assim. São todos projetados dentro do estilo. Na biblioteca da FAU tem muitas fotos que demonstram que houve muitas construções com detalhes Art Nouveau. Essa casas que têm janelas meio ovais, serralheria, detalhes. Porque parece que a forma usual de projetar era: alguém fazia um risco básico, mas os detalhes se colocava o que estava à venda nas lojas de construção, peças de serralheria, vidros e caixilhos. Parece que era muito disseminado ter detalhes Art Nouveau nas casas. Na FAU existe um setor de fotos e slides na biblioteca com dezenas de coisas que o professor Flavio Motta, pioneiro dos estudos do Art Nouveau, coletou. Parece que foi muito mais comum do que hoje achamos.

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Vista parcial da fachada da Vila Penteado/ “Guia de bens culturais da cidade de São Paulo”

O Art Nouveau foi um movimento de transição para o modernismo?
Acho muito esquisito pensar em movimento de transição, pois isso supõe que havia conhecimento de algo que viria depois. Não se pode imaginar que quem estava produzindo Art Nouveau estava pensando em chegar ao Moderno. Isso me incomoda muito, porque sempre vemos colocado dessa forma. E também que o Art Déco seria um movimento de transição entre o Ecletismo e o Modernismo.

Pode se dizer que o Art Nouveau já era uma arquitetura da Modernidade?
Qualquer um desses estilos do século 19 vai querer ser uma inovação em si. O Art Nouveau trouxe uma nova abordagem ao desenho, ao se inspirar na natureza e não nas formas consagradas historicamente. Ou seja, exerceu uma liberdade de escolha, de criar uma nova forma a partir da natureza, que é muito mais estilizada. Por se desenvolver num momento em que já havia uma indústria produzindo, instalada, embora ainda seja um momento em que as artes e ofícios da construção são muito valorizadas. Existe uma tentativa de abraçar a indústria, sem abandonar a mão de obra qualificada. É uma fusão muito interessante, porque até então os edifícios industriais não eram considerados arquitetura. Tem o caso clássico das gares das estações de trem, com aquelas belíssimas estruturas metálicas que ficavam escondidas atrás de uma fachada em estilo. Naquele momento as duas partes ficam claras como água. Você distingue o que era considerado arquitetura, ou seja, a fachada, a face para a cidade, da parte utilitária, que era onde os trens paravam, e que precisava de uma cobertura.

Havia uma tentativa de se esconder a estrutura, tanto que a Torre Eiffel foi um escândalo na época.
Foi um escândalo. E havia até vanguardistas que queriam impedir e demolir a construção. No Brasil essas coisas não ficam tão evidentes. Mas se você tomar o exemplo da casa do Vitor Horta em Bruxelas, considerada a primeira obra Art Nouveau, é feita em pedra, lindamente talhada com curvas. Um pedreiro que é quase um escultor. A estrutura que sustenta o balcão do primeiro andar, e que também serve de marquise para a porta de entrada tem uma estrutura em ferro com rebites bem visíveis. Mas as colunas desse balcão têm uma forma orgânica, mas são de ferro também. Esse contraste da pedra, material natural, talhado ali com aquela mão de obra altamente qualificada, e o material industrial era uma ousadia na época. Uma grande inovação, sutil quando olhamos, mas que revela essa síntese do que o Art Nouveau estava buscando, que era abraçar os novos tempos, a indústria, sem abrir mão da qualidade da mão de obra e dos valores ligados ao trabalho e ao artesanato que ainda subsistiam nessa época. Agora aqui no Brasil não sei se da pra fazer essa transposição, por causa das diferenças de contexto.

A Casa Tassel em Bruxelas atualmente é um hotel/François Bernadini

Quais diferenças?
Não éramos tão industrializados. Apesar de que nas paredes da Vila Penteado estão representadas as fases da economia brasileira desde os tempos coloniais até o início da industrialização. Há desde índios até uma fábrica de tecido. Existe essa leitura, mas era algo mais incipiente. Sobre o contexto brasileiro é preciso pensar mais, estudar mais, mas essa ideia [da industrialização] está no Art Nouveau.

Por que a Vila Penteado é tão representativa para o movimento?
Se você observar os ornatos dela, vai ver que são todos bem Art Nouveau. E este imóvel segue outra das características desse estilo, que é fazer todos os ambientes projetados dentro de uma mesma linguagem, algo que antes não ocorria de uma forma tão intencional. Os móveis são feitos para os lugares específicos, embutidos e desenhados, combinando com piso e paredes, além da obra de arte integrada, tudo no mesmo estilo. É algo que vem um pouco antes, com o Wiliam Morris no [movimento] Arts & Crafts, mas que para o Art Nouveau vai ser uma característica. Isso é muito bonito. E vemos isso aqui [na Vila Penteado], o que é raro nas nossas poucas obras.

Qual parte aqui da Vila você mais gosta?
Olhando recentemente, enquanto dava aula, pensei na hipótese de que ela tenha a ver com o Palácio da Secessão, em Viena, uma obra Art Nouveau muito importante. E aqui tem uns torreões que me lembram os do Palácio da Secessão. Isso também aparece muito na estação de Mairinque, do Victor Dubugras, que tem esses torreões bem mais altos, mas também sem a cúpula, como aqui.

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Estação ferroviária de Mairinque/Desconhecido

Você diria que o Art Nouveau foi importante para o Brasil?
É uma pergunta difícil. Quantitativamente foi pequena. Mas qualitativamente temos a presença de um Art Nouveau muito expressivo em termos de qualidade da construção, qualidade do projeto, muito expressiva do que era o Art Nouveau em outros lugares. Considerando uma situação cultural e econômica tão diferente [da Europa], é muito interessante constatar a existência aqui de exemplares de grande qualidade. Acho muito indicativo também dessa circulação de ideias, de modelos arquitetônicos. E desse desejo de se equiparar às nações civilizadas. Acho que essa é a questão; é uma simples repercussão, mas é o desejo das elites locais de incorporar esses valores. É um dado importante da nossa cultura.

Que outro imóvel você citaria?
Tem o Dubugras, que fez de tudo, mas tem essas casas Art Nouveau. Uma era no parque Augusta, na rua Caio Prado, que depois virou colégio, e que foi demolido. Tem um portão que é da época da casa. Se não foi uma alucinação, tem uma coluna decorada como se tivesse raízes, uma coisa muito Art Nouveau.  Acho que ainda está lá, preciso ver de novo.

Tem outro portão na rua Vitória. Demoliram a casa, virou um estacionamento, mas o portão Art Nouveau ficou lá.
Precisamos fotografar! É uma arqueologia praticamente.

Podemos dizer depois de tudo isso que conversamos que o Art Nouveau foi pouco relevante na arquitetura de São Paulo?
Não. A beleza, a qualidade espacial, o cuidado nos detalhes, a inserção [na cidade]: isso nunca é irrelevante. Alias, é cada vez mais relevante, porque vemos essas qualidades se perdendo. Outros valores estão assumindo a primazia e acho que essas contribuições do Art Nouveau para a qualidade do espaço urbano de uma cidade não podem ser consideradas irrelevantes.

 

VERBETES

Arts & Crafts: movimento estético da segunda metade do século 19. Encabeçado pelo pintor e escritor William Morris, defendeu o artesanato criativo como alternativa à mecanização e produção em massa de objetos. O artesão e o operário são os artistas da obra.

August Perret (1874-1954): arquiteto francês pioneiro no uso do concreto armado como forma de expressão da arquitetura. Diz-se que Le Corbusier trabalhou no escritório de Perret, onde teria tido contato com as novas possibilidades estruturais do concreto, material fundamental em sua produção. Perret ficou conhecido por obras como o prédio de apartamentos na rua Franklin (1903), garagem na rua Ponthieu (1906) e o teatro na Champs-Elysées (1910), todos em Paris. Em São Paulo projetou o edifício da Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP). 

Bauhaus: escola alemã de artes aplicadas. Foi resultado da fusão da Academia de Belas Artes e da Escola de Artes Aplicadas de Weimar. Fundada pelo arquiteto Walter Gropius o programa da escola era o de articular arte, artesanato, indústria, arquitetura e design. No quadro de professores estavam Wassaly Kandinsky, Mies Van der Rohe e Marcel Breuer, por exemplo.

Le Corbusier (1887-1965): um dos arquitetos mais influentes do século 20. Conceituou os cinco pontos da Arquitetura Moderna: planta livre, janelas contínuas (ou em fita), estrutura independente, terraço jardim e construção sobre pilotis. Algumas de suas obras mais conhecidas são: Vila Savoye, Unidade de Habitação de Marselha e a sede da ONU em Nova York (projetado junto com Oscar Niemeyer).

Robert Mallet Stevens (1886-1945): arquiteto francês, projetou casas e mobiliário, como a Cadeira Tubor (1926). Defendeu o movimento Moderno e fundou a sociedade União dos Artistas Modernos, em 1929. Suas principais obras são o conjunto de casas da rua Mallet-Stevens, lojas Cafés du Brésil, ambas em Paris, e a Villa Cavrois, em Croix.

Sistema de linguagem formal: elementos construtivos e decorativos que seguem padrões simbólicos e geométricos constitutivos de determinados estilos e movimentos arquitetônicos. 

Torreões: elemento arquitetônico que consiste em torres altas, largas e destacadas do corpo do edifício.

Victor Dubugras (1868-1933): arquiteto francês radicado no Brasil trabalhou no escritório de Ramos de Azevedo e foi professor da Escola Politécnica. Construiu em muitos estilos e foi adepto da experimentação de soluções plásticas e técnicas. Dentre suas obras mais conhecidas estão a Estação Ferroviária de Mairinque, o projeto urbanístico do Largo Memória e alguns monumentos no Caminho do Mar.

Vanguardas arquitetônicas: são movimentos da arquitetura e artes em geral do início do século 20. Buscavam romper com a tradição cultural vigente do século 19 e estabelecer a arte moderna. São consideradas vanguardas arquitetônicas o Movimento Arts & Crafts e a arquitetura de ferro.

Victor Horta (1861-1947): arquiteto belga considerado o primeiro a aplicar o Art Nouveau. Utilizou materiais até então pouco empregados na arquitetura como o aço e o vidro. Suas principais obras são as casas Tassel, Solvay e Horta.

* KATINSKY, Julio Roberto. Desenho Industrial. In: ZANINI, Walter. História geral da arte no Brasil. São Paulo: Inst. Walther Moreira Salles, 1983.