Mooca, Brás e Belém e o nascimento da indústria brasileira

Imigrantes no pátio central da Hospedaria dos Imigrantes/Guilherme Gaensly, 1890/ Fundação Patrimônio Histórico da Energia de São Paulo – Memorial do Imigrante

Imigrantes no pátio central da Hospedaria dos Imigrantes/Guilherme Gaensly, 1890/ Fundação Patrimônio Histórico da Energia de São Paulo – Memorial do Imigrante

 

Mooca, Brás e Belém são distritos que ganharam expressão dentro da história do desenvolvimento de São Paulo já no fim do século 19, devido ao crescimento da industrialização, das linhas férreas e, principalmente, da maciça imigração que receberam, sobretudo de italianos. 

Já o Pari, cujo nome aparece no recenseamento feito em 1765, tinha um papel mais voltado ao abastecimento do centro urbano. Fornecia peixes pescados nos rios Tietê e Tamanduateí para os mercados centrais. Seu nome origina-se de um instrumento feito de taquara ou cipó que, estendido nos rios, capturava os peixes. Hoje o Pari abriga grandes atacadistas e indústrias de doces.

A Mooca é quase tão antiga quando a própria cidade de São Paulo. A versão mais aceita para seu nome é a de que venha do tupi “moo oca” (faz casa), dada a surpresa dos indígenas mediante a construção do povoado no local.

O distrito só passou a ter importância estratégica no final do século 19. Com a imigração e, posteriormente, a implantação de um ramal na Estrada de Ferro Inglesa, o bairro foi ligado aos pontos importantes da cidade, o que favoreceu a instalação de fábricas no local. Um exemplo é a Companhia Antarctica Paulista, de 1891, que mesclava a produção de cervejas e refrigerantes com a de suínos. Posteriormente passou a ocupar a edificação da Cervejaria Bavaria, formado por um conjunto de seis edifícios maiores e alguns menores, construídos para expansão. O edifício principal é de tijolos aparentes, com cinco pavimentos, e possuía uma bomba a vapor que captava água do rio Tamanduateí.

No bairro também foi construído o estabelecimento chave para os imigrantes recém-chegados a São Paulo: a Hospedaria dos Imigrantes, de 1886. Vindos de trem do porto de Santos, estabeleciam-se nela até serem realocados para suas moradias fixas e empregos. O local abrigou cerca de 2,5 milhões de pessoas de mais de 70 nacionalidades. Funciona até hoje como hospedaria de imigrantes, especialmente latinoamericanos e africanos e abriga o Museu da Imigração.

Rua Visconde de Parnaíba e Hospedaria dos Imigrantes/Aurélio Becherini, 1900-30/Museu da Cidade de São Paulo

Inicialmente toda construída em tijolos aparentes, a hospedaria sofreu duas reformas. A primeira, em 1908, foi para ampliação; e a segunda, de 1938, mudou a fachada, cobrindo os tijolos, e, nos alpendres abertos, foram colocados arcos e floreiras. As escadas de acesso ao térreo foram substituídas por rampas e se ergueu uma fonte, assim a aparência ficou menos próxima da arquitetura industrial da época.

A Mooca sediou também o Clube Paulista de Corrida de Cavalo, implantado em 1890. Como no fim do século 19 os esportes tomaram vulto como símbolo da modernidade e do desenvolvimento, o turfe e o antigo Hipódromo ajudaram a trazer notoriedade à Mooca.

O Brás se desenvolveu já a partir do século 19, com a construção da capela de Senhor Bom Jesus de Matosinho, na chácara de José Brás, que ladeava a estrada que levava à Penha. A região ainda possuía outras chácaras de famílias ricas, como a da Marquesa de Santos.

Largo do Brás/Militão Augusto de Azevedo, 1862/Museu da Cidade de São Paulo

No entanto, tal qual a Mooca, o Brás passou a ter maior expressividade com a imigração, uma vez que era caminho da linha férrea Santos-Jundiaí, que levava os imigrantes para trabalhar na lavoura cafeeira. Parte desses imigrantes permaneceu no bairro, sendo absorvida pela indústria crescente. A partir da década de 1940, devido a uma grande seca, houve uma imigração de habitantes do Nordeste do país, o que coincidiu com o declínio da imigração europeia. Deste modo, o distrito, que era dominado por italianos, começou a ter outro sotaque e outros costumes com a inserção dessa nova população.

Cortiço do Brás/Sebastião de Assis Ferreira, 1942/Museu da Cidade de São Paulo

O Belém, dos três distritos, é o que se desenvolveu mais tardiamente. Apareceu no cenário paulistano nas últimas décadas do século 19 como uma estação climática devido à vegetação de suas chácaras. Seu nome, que vem da paróquia em homenagem a São José do Belém, de 1897, foi inicialmente “Belemzinho” (com M mesmo). Porém, como era muito extenso para caber nas placas dos bondes, foi reduzido para Belém. Em 1910, as primeiras fábricas de vidro começaram a surgir, depois as tecelagens.

Seu grande marco construtivo, porém, é a Vila Maria Zélia, inaugurada em 1917. Projetada pelo arquiteto francês Paul Pedarieux, foi inspirada em modelos europeus de vilas operárias e abrigaria os funcionários da Companhia Nacional de Tecidos de Juta, do industrial Jorge Street. O local concentrava moradia, educação, saúde, lazer. Com a desativação da empresa, em 1931, o local serviu de presídio político da ditadura do Estado Novo, entre 1936 e 1937. Em 1938 foi adquirida pela Goodyear, que demoliu parte das edificações para estabelecer sua indústria. Em 1968, os moradores, que até então alugavam as residências, foram autorizados a adquiri-las. 

Vila Maria Zélia/Rodrigo Bertolino, 2009/Wikimedia Commons

O bairro também abriga diversas escolas da Primeira República (1889-1930), como o EE Padre Anchieta, EE Oswaldo Cruz, EE Romão Puiggari e ETEC Carlos de Campos, que se enquadram no modelo de construção para a educação pública daquela época, ainda em estilo eclético. Já a Creche Marina Crespi, de 1933, concebida inicialmente para os filhos dos operários das indústrias Crespi por Giovanni Battista Bianchi, tinha tijolos aparentes e inspiração náutica na composição de seus volumes.

Devido a sua formação ligada à ferrovia e à consequente industrialização, há também nesses bairros, além de vilas e fábricas, muitos antigos galpões dispostos ao longo da via férrea. Esses galpões serviam para estocar a produção fabril ou os insumos necessários a ela.

Um exemplo são os conjuntos fabris da rua Borges de Figueiredo, na Mooca, e suas diversas edificações do final do século 19 e começo do século 20. Possuem uma arquitetura típica das atividades industriais do período, com tijolos vermelhos aparentes às vezes pintados de outra cor, estrutura em grandes vigas metálicas e janelas sequenciais com arcos. 

Essas empresas eram fruto do empreendedorismo de imigrantes que chegaram já com algum capital. Um exemplo é a família Matarazzo, cujo domínio englobava vários ramos de produção. Na rua Borges de Figueiredo há remanescentes das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo e, no Brás, há o Moinho Matarazzo, de 1900, projetado pelo arquiteto Nicolau Spagnolo, e a Tecelagem Mariângela, de 1904. Outro exemplo são os armazéns que a própria São Paulo Railway, concessionária da linha férrea, mantinha no local.

Importante também é o complexo Industrial do Gasômetro. Composto pela Casa das Retortas e pelos balões de armazenamento de gás, foi o marco na modernização da iluminação urbana, antes feita por lampiões a óleo. Estabelecido na proximidade da linha férrea, servia-se dela para receber insumos e produzir o gás que iluminaria as fábricas, as vias públicas e as residências. Na Casa das Retortas, de 1870, projeto do engenheiro inglês William Ramsey, da San Paulo Gás Company, era feita a queima do carvão. O gás resultante da combustão era armazenado em balões constituídos por anéis metálicos, encaixados uns nos outros, que subiam e desciam conforme a quantidade de gás armazenado. A San Paulo Gás Company operou até 1967, quando foi substituída, em 1968, pela COMGÁS. Hoje, a Casa das Retortas passa por restauro para abrigar o Museu de História do Estado de São Paulo.

Rua do Gasômetro e Casa das Retortas/Autor desconhecido, 1931/Museu da Cidade de São Paulo

Nascida do fenômeno econômico que a produção cafeeira produziu em São Paulo, a indústria não só expandiu o enriquecimento da cidade, mas também a modernizou e ampliou. Para marcar sua importância, em 1924, foi inaugurado um museu em sua homenagem: o Palácio das Indústrias. Foi projetado pelos arquitetos Domiziano Rossi, Ramos de Azevedo e Ricardo Severo, inspirado no estilo de construções medievais, mas com nichos para estátuas de influência renascentista. O anexo lateral segue o estilo da indústria da época, em tijolo vermelho aparente e o jardim central lembra a estrutura conventual. É encimado por um relógio e possui adornos que remetem ao trabalho e à industrialização. Serviu ao seu propósito até 1947, quando foi transformado em Assembleia Legislativa, até 1968. Em 1970 chegou a servir de prisão. Mas, a partir de 1992, foi restaurado para sediar a Prefeitura da cidade, seguindo o projeto da arquiteta Lina Bo Bardi, até que, em 2009, passou a abrigar o Museu Catavento.

Palácio das Indústrias/ foto Dornicke
Palácio das Indústrias/ foto Dornicke

Das primeiras linhas férreas que alavancaram o crescimento econômico e urbanístico, sobraram alguns remanescentes no Brás. A atual Estação do Brás foi construída agregando partes da estação inaugurada em 1867, como o trecho da plataforma (em desuso), do acesso coberto pela rua Domingos Paiva e as paredes de tijolos vermelhos aparentes com topo em ângulo. Importante também é a antiga garagem de bondes do Brás, da São Paulo Tramway Light and Power Company Limited, conhecida simplesmente por Light, cuja estrutura arquitetônica é semelhante à das fábricas no começo do século 20. Foi constituída em 1900 para substituir por bondes eletrificados os antigos bondes movidos por tração animal da Companhia Viação Paulista. Porém, dada a política dos transportes da época, seu uso foi descontinuado em 1968, dando-se preferência para os ônibus. Hoje é garagem e oficina de trólebus.

Outro edifício histórico da região é o Quartel do Segundo Batalhão de Guardas, no Parque Dom Pedro II. Hoje bastante deteriorado e fechado, teve vários usos no decorrer do tempo. Construído em 1842, foi inicialmente sede da Chácara do Fonseca. Depois disso, a construção abrigou o Convento das Irmãs Duarte (1852), o Seminário de Educandos (1860), o Seminário de Educandas (1861) e o Hospício dos Alienados (entre 1862 e 1905), até ser adaptado, em 1905, para receber o quartel que nele funcionou até 1992. Sua estrutura original é de taipa, mas tem ampliações em tijolos executadas no século 19. Erguido com dois pavimentos, mescla os estilos colonial e neoclássico, tanto em sua estrutura construtiva quanto em seus adornos.

Embora todos esses locais históricos datem do final do século 19 ao primeiro terço do século 20, há uma construção tombada que, ao lado do edifício da creche Marina Crespi, foge desse padrão: o Teatro Arthur Azevedo, de 1952. Projetado pelo arquiteto Roberto Tibau seguindo a estética moderna, foi uma homenagem ao membro da Academia Brasileira de Letras, poeta e dramaturgo maranhense Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo. Foi erguido dentro de uma política precursora de descentralização e alargamento do acesso à cultura, além de se inserir no programa de construções escolares que a Prefeitura implementava na época, o Convênio Escolar

Teatro Arthur Azevedo, na Mooca/ foto Giselle Porto
Teatro Arthur Azevedo, na Mooca/ foto Giselle Porto

Para um passeio na Mooca, consulte as dicas do nosso roteiro “Mooca: Patrimônio Industrial, Gastronomia e Música”.