Nossa Senhora Aparecida e a construção de uma identidade nacional

maria helena chartuni

Maria Helena Chartuni durante o processo de resturo/ Acervo pessoal de Maria Helena Chartuni

por Amanda Ferrarese

No próximo dia 12 de outubro é comemorado o dia de Nossa Senhora Aparecida. Este ano a data marca também os 300 anos do encontro da imagem desta santa nas águas do rio Paraíba do Sul. A pequena estátua de barro mede apenas 36 cm e, para os católicos, é um dos símbolos nacionais. 

Conta a história que em 1717 três humildes pescadores receberam a incumbência de buscar peixes para o Conde de Assumar, governador da capitania de São Paulo e Minas Gerais. Sem sucesso, os pescadores lançaram a rede ao rio uma última vez quando, surpresos, viram o corpo da imagem e o recolheram. Após o acontecimento, a pesca foi farta e a história da imagem se espalhou pela região, movimentando pessoas de diferentes locais e classes sociais para visitá-la.

Segundo alguns estudiosos, como Fuviane Galdino Moreira¹, a imagem de Nossa Senhora Aparecida é um dos elementos que formam a identidade nacional brasileira. Com a Independência do Brasil, em 1822, a necessidade de símbolos e acontecimentos que unissem todo o povo e território brasileiro passou a ter um importante papel. Tão importante que em 1868 a Princesa Isabel presenteou a santa com um manto de veludo azul, com 21 brilhantes que representavam a capital e as 20 províncias do Império. E em 1884, ela ganhou uma coroa de ouro e brilhantes.

Cartaz comemorativo dos 150 anos da Independência do Brasil/
Cartaz comemorativo dos 150 anos da Independência do Brasil/Retirado do livro: Igreja, nacionalismo e devoção popular: as estampas de Nossa Senhora Aparecida 1854-1978

Mas a proclamação como Padroeira do Brasil ocorreu somente em 1931, durante o governo de Getúlio Vargas. E a escolha pelo dia 12 de outubro ocorreu em 1953, na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil: é a mesma data que marca o Descobrimento das Américas por Cristóvão Colombo. E por fim, em 1972 houve uma grande peregrinação da imagem por todo o Brasil e, em 1980, a inauguração da basílica nova, já durante o regime militar. Esses acontecimentos demonstram a busca por parte da igreja católica de construir e valorizar uma memória.

Esforço que levou a uma complexa restauração da imagem, em 1978. Naquele ano a estátua foi derrubada no chão por um praticante de outra religião e se quebrou em cerca de 200 pedaços. Em busca de um profissional para restaurar a imagem, os padres de Aparecida chegaram em Pietro Bardi, diretor do MASP naquele momento. Bardi indicou a restauradora Maria Helena Chartuni para o trabalho, que foi realizado nas dependências do museu e sob forte controle e sigilo. 

Foto dos fragmentos da imagem de Nossa Senhora Aparecida/ Acervo pessoal de Maria Helena Chartuni
Foto dos fragmentos da imagem de Nossa Senhora Aparecida/ Acervo pessoal de Maria Helena Chartuni

A estátua de barro foi praticamente refeita e o lado direito do rosto teve de ser inteiro modelado por Maria Helena. Após 33 dias de trabalho, a imagem foi devolvida ao santuário. Mas logo em seguida ela foi substituída por uma réplica, pois um padre estava muito insatisfeito com a restauração. O padre levou a imagem para seu quarto com o objetivo de arrumar o olho direito, que segundo ele, não era mais como antigamente. Mas além de afinar os olhos da santa, ele também a pintou, com uma tinta automotiva, de uma cor mais clara. Dias depois abandonou o Aparecida e, quando encontraram a estátua, Maria Helena foi chamada novamente para restaurar a imagem. 

Para quem quiser saber mais sobre a história da imagem e de Nossa Senhora Aparecida e a devoção a ela pode aproveitar o ensejo da comemoração e 300 anos e visitar a exposição fotográfica “Aparecida do Brasil”, organizada pelo Museu de Arte Sacra em São Paulo.

1 – MOREIRA, Fuviane Galdino. Mantos de Aparecida: religião, política e identidade nacional. Disponível em: <http://www.snh2017.anpuh.org/resources/anais/54/1488553160_ARQUIVO_MantosdeAparecidareligiao,politicaeidentidadenacional.pdf>. Acesso em: 05 out. 2017.
2- Almeida de Souza y Juliana Beatriz (2013). Construção da memória e devoção na escolha de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. XIV Jornadas Interescuelas/Departamentos de Historia. Departamento de Historia de la Facultad de Filosofía y Letras. Universidad Nacional de Cuyo, Mendoza. Disponível em: <http://cdsa.aacademica.org/000-010/314.pdf>. Acesso em: 05 out.2017
3- ÁLVAREZ, Rodrigo. Aparecida (Edição revista e ampliada em comemoração ao jubileu de 300 anos) – A biografia da santa que perdeu a cabeça, ficou negra, foi roubada, cobiçada e conquistou o Brasil: A biografia da santa que perdeu a cabeça, ficou negra, foi roubada, cobiçada e conquistou o Brasil. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2017.

Serviço

Exposição: “Aparecida do Brasil
Fotografia: Thiago Leon
Acervo: Museu Nossa Senhora Aparecida
Período: 22 de setembro a 19 de novembro de 2017
Local: Sala MAS – Metrô Tiradentes – www.museuartesacra.org.br
Estação Tiradentes do Metrô – São Paulo/SP
Tel.: (11) 3326-5393 – agendamento/ educativo para visitas monitoradas
Horário: Terça a domingo, das 9h às 17h
Ingresso: Grátis aos usuários do Metrô