O Bexiga e sua origem multicultural

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Casario do Bexiga visto a partir da praça Dom Orione/1974/ Edison Pacheco Aquino/Acervo PMSP

O Bexiga, que faz parte do distrito da Bela Vista, é reconhecido por sua diversidade cultural e social. Foi local de refúgio para escravos fugidos(e posteriormente ex-escravos), caçada, descanso para viajantes e de moradia para imigrantes italianos e nordestinos. Uma das características marcantes do Bexiga é que apesar de sua localização central, próximo a avenida Paulista e centro da cidade, até hoje lembra uma cidade do interior com suas ruas estreitas, sinuosas e sobrados geminados. 

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Desenho da Chácara do Bexiga/ SP-Urbanismo(acervo da antiga EMURB)

O processo de ocupação e urbanização da Bela Vista começou por volta de 1878, quando a área foi loteada. Eram terrenos de pequena largura e grande profundidade. Outra característica da região é a topografia irregular e a proximidade com cursos d’água (o distrito está entre os rios Itororó e Saracura, hoje canalizados). Essas características geográficas desfavoráveis faziam com que os terrenos da Bela Vista fossem acessíveis aos ex-escravos e imigrantes italianos que trabalhavam como artesões, comerciantes e construtores civis. Na década de 1970, os imigrantes nordestinos se estabeleceram no bairro e também contribuíram para a diversidade cultural do Bexiga. Mais recentemente o bairro têm recebido refugiados africanos, se tornando ainda mais multicultural.

Toda essa diversidade se expressa em manifestações culturais como a festa de Nossa Senhora de Achiropita e a escola de samba Vai-Vai. Ou então nas músicas de Adoniran Barbosa, que apesar de não ter morado no bairro, o retratou em suas canções (há um monumento em sua homenagem no bairro, na praça Dom Orione). Outra contribuição do bairro para nossa cultura é a mistura de idiomas que ajudou a criar o sotaque paulistano. Cabe lembrar que a população de estrangeiros, já no século 19, era superior à de nativos; portanto, a São Paulo contemporânea é resultado de um conjunto de influências.

Dada a importância da formação social, cultural e sua influência na cidade, a Bela Vista foi alvo de estudos, projetos e discussões sobre preservação e patrimônio histórico. Por exemplo, o IGEPAC Bela Vista (Inventário Geral do Patrimônio Ambiental), um complexo estudo de sua história e bens culturais desenvolvido durante a década de 1980. O projeto do Parque da Grota (idealizado por Paulo Mendes da Rocha em 1976) e o Concurso Nacional de Ideias para a Renovação Urbana e Preservação do Bexiga em 1989, propunham intervenções que visavam adensar a região sem perder suas características culturais. Não chegaram a ser executados. Anos mais tarde, em 2002, a Resolução 22/2002 do Conpresp tombou aproximadamente 1.100 bens no distrito, número que corresponde a um terço dos bens tombados da cidade de São Paulo (a cidade possui cerca de 3.400).

A Resolução 22/2002 busca além de preservar bens históricos, preservar também o casario que forma a paisagem do Bexiga. O casario é composto por casas assobradadas, com porão alto, geminadas e fachada alinhada à rua, mas que não ocupavam o lote por inteiro. Outra forma de morar no Bexiga eram os cortiços. A partir da metade do século 19 muitas pessoas chegaram à cidade e os cortiços era uma forma rápida e barata de encontrar moradia, embora muitas vezes em situações inseguras e insalubres.

É interessante notar que, até quase a metade do século 19, as construções em São Paulo eram predominantemente em taipa de pilão. Com o crescimento econômico e a chegada de imigrantes, principalmente dos italianos e seus mestres de obras, foram introduzidas outras técnicas construtivas como a alvenaria de tijolos. Como pode ser visto no casario e em outros exemplares de arquitetura institucional, como a Escola de Primeiras Letras, de 1877, uma das construções pioneiras no uso de alvenaria estrutural em São Paulo. É um edifício de pequenas dimensões, são apenas duas salas de aula e acessos independentes para cada sexo, como era determinado naquela época.

Casa de Dona Yayá/Wikipida
Casa de Dona Yayá/Wikipida

A paisagem arquitetônica do Bexiga se completa com alguns imóveis que guardam características bastante peculiares, seja por sua história ou sua arquitetura. Um deles é a Casa de Dona Yayá, construída por volta de 1870, hoje é sede do Centro de Preservação Cultural da Universidade de São Paulo. O edifício de traços neoclássicos foi por 41 anos a morada e clausura de Dona Yayá, herdeira única de uma fortuna da qual não pode usufruir por ter sido declarada mentalmente incapaz de administrá-la. Outro local com arquitetura marcante é o Castelinho da avenida Brigadeiro Luís Antônio, um palacete de 1911, que hoje recebe eventos particulares. É um dos poucos remanescentes com características art nouveau de São Paulo, também construído em alvenaria de tijolos.

Outro local é a Vila Itororó, de 1929. É um conjunto idealizado pelo comerciante português Francisco de Castro como local privado de uso público; uma piscina fazia parte de seus equipamentos. A arquitetura mescla o neoclássico e o art déco. Foi erguida, em parte, com restos de demolição do Theatro São José, entre eles leões, carrancas e cariátides, o que confere ao conjunto uma atmosfera pitoresca. Em 2006 foi decretado como um local de utilidade pública e desde 2013 passa por um processo de restauro aberto ao público, com a participação de ex-moradores da Vila, moradores do entorno, artistas, pesquisadores, arquitetos e trabalhadores da obra.

Vila Itororó/Wikipida
Vila Itororó/Wikipida

O Bexiga também é conhecido por sua vocação cultural e de lazer. O primeiro teatro chegou ao distrito em 1948. Era o Teatro Brasileiro de Comédia, que funcionou até 2008, marco do teatro brasileiro. Em 1958 foi a vez do Teatro Oficina se instalar na região. Neste local foi lançado o manifesto cultural do Tropicalismo, além de ser palco para apresentação de atrizes e atores emblemáticos da dramaturgia brasileira. Em 1966 houve no local um incêndio, e o projeto de reconstrução ficou sob responsabilidade de Lina Bo Bardi, arquiteta que projetou o Masp e o Sesc Pompéia. Também se instalaram na região o Teatro Imprensa, em 1988, e o Ruth Escobar, em 1963, entre outros.