Parte de uma antiga sesmaria, Pacaembu e Perdizes abrigam marcos arquitetônicos

Projeto de loteamento do Sumaré/Arquivo Público do Estado de São Paulo

 

A região do Pacaembu correspondia a uma das sesmarias concedidas aos jesuítas no período colonial. Após a expulsão da ordem, no século 18, a área passou a se constituir essencialmente por pequenas chácaras. Mais tarde, já no século 19, a antiga sesmaria começou a ser loteada para a construção de residências, quando surgiu a divisão de bairros que conhecemos hoje: Pacaembu, Perdizes e Higienópolis (sobre o qual falaremos em outro texto).

O Pacaembu foi loteado pela Companhia City, que também idealizou o bairro do Jardim América. Ambos seguem o conceito da cidade-jardim, de Ebenezer Howard. Essa concepção urbanística surge no contexto das cidades industriais inglesas, em resposta a problemas com a insalubridade das moradias e a poluição causada pelas fábricas. Em São Paulo a ideia foi aplicada na constituição de um bairro voltado à classe média-alta.

A área para o Estádio Municipal do Pacaembu fazia parte do loteamento feito pela Companhia City e foi transferida para a prefeitura em 1925 como área institucional. Posteriormente denominado como Paulo Machado de Carvalho, foi erguido como o grande estádio municipal da cidade. É um projeto do escritório Ramos de Azevedo e Severo & Villares, inspirado no racionalismo italiano e concluído em 1940.


Estádio Pacaembu em construção/foto BJ Duarte/Acervo PMSP

Outro bem cultural desse bairro com importância para a história de São Paulo é o Asilo dos Expostos. Construído por solicitação da Santa Casa de Misericórdia, sua função era abrigar e educar as crianças abandonadas na roda dos expostos. Por volta da década de 1910, o antigo prédio foi substituído por outro maior, também com projeto do escritório Ramos de Azevedo, responsável pela maior parte das obras pública da cidade na época. Em 1944 passou a se chamar Educandário Sampaio Viana. Mais tarde, viria a integrar a Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor (Febem) até sua desativação em 1997. É um exemplar importante dos estilos ecléticos do começo do século 20, além de possuir área de preservação ambiental.

O Pacaembu é formado essencialmente por residências que marcam diferentes momentos do século 20. Há duas casas modernistas pioneiras: a Casa da rua Itápolis e a Casa da rua Bahia. Ambas são de 1930 e foram projetadas pelo arquiteto ucraniano radicado em São Paulo Gregori Warchavchik. São construções de linhas retas, sem adornos, com volumes retangulares assimétricos marcando um aproveitamento não linear do espaço.

Casa da Rua Itápolis/Guia de Bens Culturais da Cidade de São Paulo
Casa da Rua Itápolis/Guia de Bens Culturais

Outra casa relevante é a Residência Rio Branco Paranhos, projeto do arquiteto Vilanova Artigas construído em 1943 . Implantada em um terreno íngreme, remonta a uma período da produção de Artigas com influência do arquiteto norte-americano Frank Lloyd Wright.

Houve, entretanto, um quinhão da Fazenda do Pacaembu que não foi loteado pela Companhia City, mas pela Sociedade de Terrenos e Construções Sumaré, originando o distrito com o mesmo nome. Em 1924, a área foi terraplenada para a venda, mas, com a crise do café em 1929, o interesse pelos lotes foi pequeno. A Igreja Nossa Senhora do Rosário de Fátima, construída entre as décadas de 1930 e 1940, foi um dos fatores de atração para a ocupação que se deu depois. Também colaborou para o desenvolvimento local o estabelecimento da rádio Difusora PRF3, que se beneficiava com a altitude do bairro. Em 1937, o empresário Assis Chateaubriand comprou a empresa e formou no local a maior rede de comunicações da América Latina: os Diários e Emissoras Associadas, cuja hegemonia durou cinquenta anos.

O Sumaré tem duas casas de um momento posterior na produção de Vilanova Artigas que se destacam na área em que foram construídas: a Casa dos Triângulos, de 1958, e a Residência José Mário Taques Bittencourt II, de 1959.

Casa Rubens Mendonça, ou Casa dos Triângulos/Nelson Kon
Casa Rubens Mendonça ou Casa dos Triângulos/foto Nelson Kon

Como em muitos outros bairros, Perdizes começou a tomar forma em torno de sua igreja matriz. O nome remete ao século 19 e à chácara de Joaquim Alves, onde havia criação de perdizes. Mas foi só no século 20, com a construção da Igreja de São Geraldo das Perdizes, que o bairro se organizou. A igreja, inaugurada em 1932, é um exemplar do estilo eclético predominante na época, neste caso com referências bizantinas e românicas. Em seu interior, a capela do Santíssimo Sacramento foi adornada pelo artista plástico Salvador Ligabue, de expressiva obra sacra. 

 


Igreja de São Geraldo das Perdizes/foto Isadora Almeida

Outra igreja importante para o conjunto da arquitetura sacra desses bairros é a Igreja do Imaculado Coração de Maria, construída em estilo neocolonial em 1923. Contígua a ela e de mesmo estilo arquitetônico, havia o convento das Carmelitas Descalças, onde em 1946 estabeleceu-se a Pontifícia Universidade Católica (PUC). Essa mudança de uso remete à ocorrida com o  convento do largo de São Francisco, que a partir de 1827 passou a abrigar a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Outro bem cultural da mesmo época é o edifício do Colégio Batista Brasileiro, de 1923. Foi projetado pelo arquiteto Antônio Garcia Moya, participante da Semana de Arte Moderna de 1922. O edifício, ainda filiado ao ecletismo, possui influência das antigas construções religiosas, com inspirações bizantinas e românicas. Essas instituições de ensino atraíram estudantes para a região e aceleraram seu desenvolvimento.

Outro marco da urbanização paulistana na região é o Reservatório do Araçá, de 1907, mas inaugurado oficialmente em 1930. Possui capacidade para 14 milhões de litros de água. Situado em um parque de 12.400 m², tem árvores raras e centenárias e sua área é utilizada para lazer pela população.


Reservatório do Sumaré/foto Lucas Sarti

Há também um conjunto de edificações de períodos e estilos diferentes utilizado pelos clérigos dominicanos. Entre eles está a antiga sede da fazenda da família Cardoso de Almeida, proeminente político paulistano do início do século 20, adquirida pela ordem dos dominicanos em 1938. A Igreja de São Domingos, de 1953, projeto moderno de Adolf Franz Heep, faz parte do conjunto.