Paulo Mendes da Rocha fala sobre projeto para o Parque Ibirapuera

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha visita exposição no Mube, museu projetado por ele no Jardim Europa/Vanessa Correa

Em entrevista exclusiva para o blog, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha -que ganhou nesta sexta (6) o Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza- comenta o projeto que transformará a área entre a Oca e o Auditório Ibirapuera na entrada principal do parque. A intervenção privilegia a locomoção a pé ou por transporte público. A reforma é uma ação da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo.

Mendes da Rocha e Milton Braga, coautor do desenho, projetaram um piso contínuo e “perfeitamente horizontal”, permeável, no espaço que existe hoje entre Oca, o Auditório e uma das pontas da Marquise. “O poeta disse que a praça é do povo como o céu é do condor. Ninguém projeta o céu para o condor. A praça é um lugar que o público cria. Esse espaço já existe”, disse o arquiteto. O local onde a praça acontecerá serve hoje como estacionamento.

Leia abaixo trechos da entrevista.

DPH – Qual é o partido de projeto adotado para a área entre a Oca e o Pavilhão da Bienal?

Paulo Mendes da Rocha – Não é um projeto arquitetônico novo. O que está se fazendo é a manutenção daquilo que o patrimônio [histórico] já tombou, que é a obra do Niemeyer. Naquele lugar há uma entrada principal do Parque Ibirapuera, que coincide com a porta, digamos assim, da marquise, que é uma peça chave do parque todo. No transverso há o museu chamado Oca, e do outro lado o grande auditório. Portanto, esse espaço entre os quatros eventos -porta do parque, porta da marquise, porta da Oca, porta do auditório- já é por si mesmo uma praça. O que estamos cuidando é que pavimento se deveria fazer, examinando as soleiras dessas quatro entradas, porque é possível fazer uma praça perfeitamente horizontal, permeável. Para um lugar assim, de onde saem ou esperam para entrar 1.000, 1.500 pessoas para o auditório ou, em exposições de grande sucesso, filas que dão a volta no museu, pressupõe-se uma área no exterior capaz de abrigar essa movimentação um tanto quanto desordenada anterior aos próprios episódios que silenciosamente vão se dar lá dentro. Isso é comum de nossa experiência. Você não pode usar, para construir nada, nem desenhar uma cidade, nenhum saber que não seja fundado na experiência histórica de nós mesmos, do próprio homem. E a experiência é essa. Quando você sai, quietinho, do teatro, mil pessoas, lá fora tem que ter espaço para esses mil que vão começar a se agitar, andar para lá e para cá. Esse lugar chama-se praça.

Então não haverá mais estacionamento naquela entrada?

Isso é do projeto do parque. A política desse projeto não é de nenhum escritório de arquitetura, muito menos minha, é uma política do consenso desse verdadeiro fórum que é o conselho que dirige o parque e da Fundação Bienal. O estacionamento nesta área vai ser abolido completamente. O que vai haver é possibilidade de paradas técnicas para embarque e desembarque, manutenção dos prédios, coisas assim. E será aumentada a frente dos portões de entrada naquele lugar, enquanto entrada do parque, para poder se imaginar, com conforto, acostamento de ônibus de turistas, táxis, carros para pessoas com necessidades especiais e coisas assim. Enfim, tudo que é da regra básica do desenho da cidade contemporânea.

E qual é a sua opinião sobre estacionamentos no parque?

Eu diria que nós sabemos hoje, porque já é de consenso, que você não pode chamar de parque ou praça um lugar para estacionar automóveis. Senão você teria que concordar que os melhores parques da cidade de São Paulo estão nos pátios das fábricas de automóveis.  Ou mesmo nas vias públicas, nas marginais, quando os helicópteros mostram que elas estão congestionadas. Portanto são questões de critério. Você não pode implantar um parque e encher de automóveis. Não se chega a parque e museu de automóvel.  Ou, se é para chegar, temos que providenciar grandes garagens subterrâneas, fora do parque, porque não há arvoredo que aguente uma garagem no subsolo.

Você considera o acesso ao Parque Ibirapuera, via transporte público, suficiente?

Nós defendemos, quando queremos nos livrar do automóvel, o transporte público. Portanto é uma questão de planejamento junto aos órgãos que cuidam do transporte público entender como se pode incentivar, inclusive com metrô, esse transporte público. Se o metrô cruzasse o Ibirapuera, poderia se fazer [uma estação]. A questão é que nós temos que ser ricos.  Se você é pobre, não frequenta o mundo contemporâneo. Um voo internacional, você pode ver o preço. Mesmo o trato de lixo, esgoto, fornecimento de energia elétrica, informática, não cabe na ideia de pobreza. Portanto, podíamos até ter o luxo de pegar os melhores parques da cidade e ligá-los com um anel de metrô, só para divertimento público. É uma questão não só de ter dinheiro. De saber empregar bem o dinheiro que de fato temos. A crise brasileira atual poderia ser comentada em duas palavras: é uma crise diante da constatação de que jogamos fortunas fora. Não é que não temos dinheiro. O dinheiro que temos, jogamos fora.

Essa praça se tornará um local de convívio, como é a marquise?

A praça é um evento que acontece nas ações humanas. Tanto que o poeta disse que a praça é do povo como o céu é do condor [a frase é de Castro Alves]. Ninguém projeta o céu para o condor. A praça é um lugar que o público cria. Esse espaço [da praça] ele já existe [no parque]. A marquise é a alma do Parque Ibirapuera. Aquela marquise é uma invenção maravilhosa, porque ela realizou o parque. O parque é tudo que tá lá fora. E a marquise leva você aos eventos fundamentais: Pavilhão da Bienal etc. etc., como todo mundo sabe. Há esse ponto, justamente onde não há um pavilhão diretamente ligado a essa ponta da marquise. Nesse lugar há um alargamento justamente para três coisas: uma das portas do parque, a porta do museu, e a porta do auditório. Portanto é uma praça por si.

 

Acima, situação atual da área próxima à Oca; abaixo, perspectiva ilustrada da área após intervenção
Acima, situação atual da área próxima à Oca; abaixo, perspectiva ilustrada da área após intervenção/06.mai.2016/Google

 

Restauro e requalificação urbanística do Pavilhão de Exposições Lucas Nogueira Garcez/ Paulo Mendes da Rocha Arquitetos Associados e MMBB Arquitetos
Restauro e requalificação urbanística do Pavilhão de Exposições Lucas Nogueira Garcez/Paulo Mendes da Rocha Arquitetos Associados e MMBB Arquitetos

 

Restauro e requalificação urbanística do Pavilhão de Exposições Lucas Nogueira Garcez/ Paulo Mendes da Rocha Arquitetos Associados e MMBB Arquitetos
Restauro e requalificação urbanística do Pavilhão de Exposições Lucas Nogueira Garcez/Paulo Mendes da Rocha Arquitetos Associados e MMBB Arquitetos
Restauro e requalificação urbanística do Pavilhão de Exposições Lucas Nogueira Garcez/ Paulo Mendes da Rocha Arquitetos Associados e MMBB Arquitetos
Restauro e requalificação urbanística do Pavilhão de Exposições Lucas Nogueira Garcez/Paulo Mendes da Rocha Arquitetos Associados e MMBB Arquitetos
Entrada do Auditório Ibirapuera, que faz parte da área de intervenção/ Felipe Borges
Entrada do Auditório Ibirapuera, que faz parte da área de intervenção/Felipe Borges