Pedregulho e a complexidade do restauro do patrimônio moderno

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Fachada restaurada do Pedregulho, São Cristóvão, RJ/Cesar Barreto

O conjunto habitacional de Pedregulho, obra de Affonso Reidy em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, teve grande importância tanto para a arquitetura moderna quanto para o avanço dos ideais de habitação popular. Foi uma das obras brasileiras apresentadas na exposição Brazil Builds (1943), de Philip Goodwin, que deu destaque mundial à arquitetura brasileira.

Já em 1986 a prefeitura do Rio tombou o conjunto, apenas 36 anos após sua conclusão, o que é relativamente incomum. O tombamento pelo governo do Estado ocorreu mais tarde, em 2011. Em 2015, o Iphan, órgão federal de proteção ao patrimônio histórico, abriu um processo de tombamento da obra.

As obras de restauro do conjunto começaram em 2011, quase nove anos após sua aprovação e início dos processos de licitação.

Esq: a estrutura apresentava grandes danos. Dir: Processo de recuperação da fachada oeste do Bloco A/Felipe Varanda
Esq: a estrutura apresentava grandes danos. Dir: Processo de recuperação da fachada oeste do Bloco A/Felipe Varanda

O restauro de exemplares de arquitetura moderna é um campo ainda em construção, permeado por dificuldades específicas, já que se tratam de edificações com maior grau de industrialização, diferente de obras de períodos anteriores, que podem ser refeitas artesanalmente. O restauro do conjunto de Pedregulho, que foi de 2011 a 2015, traz uma boa amostra desses problemas e as possibilidades de solução para eles.

É o caso dos cobogós da parte posterior do Bloco A, o maior dos três blocos. Foram dois anos de buscas para encontrar um fornecedor que criasse um material que se assemelhasse ao original para substituir as peças danificadas. Apesar da substituição da maior parte das peças do conjunto, os oito mil cobogós da fachada A6, que estavam mais conservados, foram removidos, tratados e repostos para servir de registro dos elementos vazados da época da construção.

As janelas originais, de madeira, deixaram de funcionar devido ao desgaste e à falta de manutenção.  Algumas haviam sido trocadas por janelas de alumínio pelos próprios habitantes. Pensando na conservação a longo prazo de um bem usado por moradores de baixa renda, fez-se uma concessão e optou-se pela substituição de todas as esquadrias por peças semelhantes, feitas de alumínio, mas pintadas com o tom de azul original da obra.

Comparação da fachada antes e depois do restauro/Felipe Varanda
Comparação da fachada antes e durante o restauro/Felipe Varanda

Para o projeto inicial não se imaginava o uso de ar-condicionado, e os apartamentos foram desenhados para permitir a ventilação cruzada (quando o vento cruza o imóvel por meio de aberturas e janelas). Com o passar do tempo, os moradores instalaram diversas unidades de ar-condicionado, e removê-los não era uma opção. A equipe decidiu padronizar o do uso do aparelho por meio de um projeto, integrando-o à fachada da construção.

No Bloco A, que tem  260 metros de comprimento e sete andares, os 272 apartamentos possuem vista para a Baía de Guanabara. Para que a insolação não fosse um problema para os moradores, Reidy instalou brises. Essa novidade se tornou uma das características da arquitetura moderna no Brasil. O processo de restauro desses para-sóis, de madeira, foi artesanal. Depois de removidas e catalogadas, as placas passaram por processos de raspagem, preenchimento de falhas e desgastes e aplicação de película protetora. A catalogação permitiu que as as peças fossem recolocadas nas posições originais.

Fachada com cores recuperadas e brises restaurados/Felipe Varanda
Fachada com cores recuperadas e brises restaurados/Felipe Varanda

As dificuldades no restauro de Pedregulho não foram menores do que os desafios enfrentados em sua criação, como Alfredo Britto relatou no livro “Pedregulho: O Sonho da Habitação Popular no Brasil”, lançado em 2015 para documentar o restauro desse importante conjunto. A publicação detalha a obra e as questões que surgiram durante ela e suas informações foram a base para escrever esta matéria. Um pequeno perfil do autor, que morreu pouco após a publicação do livro, pode ser encontrado ao fim deste texto.

UMA PEDRA NO MEIO DO CAMINHO

Na década de 1940, no Rio de Janeiro, a migração de trabalhadores do campo para as fábricas fez com que a demanda por moradias populares aumentasse. Junto a isso, o crescimento das favelas apresentava um problema não só social, mas também de urbanização.

Com o intuito de atender às demandas de maneira eficaz, criou-se o DHP (Departamento de Habitação Popular), dirigido por Antônio Laviolla. Integrando a primeira equipe estavam o arquiteto Affonso Reidy e a engenheira e urbanista Carmen Portinho.

Carmen (também conhecida com importante ativista do movimento feminista no Brasil), era formada em engenharia geográfica (1924) e civil (1926). Sua proposta no DHP era criar conjuntos autossuficientes que atendessem as necessidades dos trabalhadores.

Para Laviolla, ao contrário de Carmen, as habitações populares deveriam ser individuais, e não coletivas. Carmen e Reidy continuaram defendendo o projeto até que, com a mudança da gestão na prefeitura do Rio, Carmen foi nomeada diretora do DHP e Reidy assumiu a direção do Departamento de Urbanismo.

Pedregulho foi o primeiro conjunto construído pelo DHP e uma das poucas obras notadas por Max Bill, designer, arquiteto e crítico de arte, em sua passagem pelo Brasil, classificando-o como um triunfo urbanístico, arquitetural e social.

 

Planta do projeto do conjunto
Perspectiva do primeiro estudo do conjunto/1946

Seu projeto original contava com três blocos, mas um deles não chegou a ser construído por seu custo e complexidade elevados. As obras do conjunto foram paralisadas por quase uma década e só ficaram prontas em 1950. Durante esse período, Carmen e Reidy foram exonerados de seus cargos durante uma mudança de gestão, e a falta de policiamento nas obras deu a oportunidade para furtos de materiais.

Outro acontecimento que acabou se configurando em uma barreira foi a criação do BNH (Banco Nacional de Habitação) pelo regime militar, em 1964. A instituição priorizava a aquisição dos imóveis pelos moradores, e a manutenção dos equipamentos públicos que faziam parte do conceito original (lavanderia,  escola, ginásio e piscina, por exemplo) e do próprio edifício foi abandonada.

 

Pedregulho – O Sonho Pioneiro da Habitação Popular no Brasil (2015). De: Alfredo Britto (Brasil, 1936-2015). Editora: Edições de Janeiro (http://edicoesdejaneiro.com.br/). 190 págs. R$90,00.

 

*Alfredo Britto (1936-2015) era especialista nas questões da preservação do patrimônio histórico e cultural do Rio de Janeiro. Projetou o restauro do conjunto do Arquivo Nacional, Rio Cidade Laranjeiras e o conjunto residencial Prefeito Mendes de Moraes. Também foi autor dos livros “Arquitetura Moderna no Rio de Janeiro” (1991) e “Paisagens Particulares” (2000).