Perus, um Território de Interesse da Cultura e da Paisagem

Vista da Fábrica de Cimento de Perus, Vila Inácio/Humberto do Lago Müller

Prédios da Fábrica de Cimento de Perus, Vila Inácio/Humberto do Lago Müller

A região de Perus (Zona Norte), que se desenvolveu a partir da antiga Companhia de Cimento Portland Perus, é conhecida por seu potencial cultural. A fábrica norteou o crescimento das vilas operárias e deu origem ao movimento dos trabalhadores, conhecidos como Queixadas. Todos esses elementos, além da ferrovia e do cemitério onde foram encontradas as ossadas de vítimas da Ditadura Militar compõem o patrimônio histórico da região.

A riqueza de referências materiais e imateriais que compõem a identidade da região de Perus levou-a a ser classificada, no Plano Diretor de 2014, como TICP (Território de Interesse da Cultura e da Paisagem).  Esses territórios são áreas onde estão concentrados  importantes elementos para a memória e identidade da cidade, como atividades culturais, elementos materiais, imateriais e de paisagem. Existem dois TICPs em São Paulo: Jaraguá/Perus e Paulista/Luz.

FÁBRICA DE CIMENTO

A antiga Companhia de Cimento Portland Perus foi fundada por um grupo canadense que a comandou até o final de década de 1940, quando foi comprada pelo empresário J.J. Abdalla. “Ela foi construída fora do eixo de industrialização da cidade por conta da existência de matéria prima para a produção de cimento na região”, explica Euler Sandeville, professor da FAU/USP. Ele acrescenta que a importância histórica está no fato dessa ter sido possivelmente a primeira fábrica de grande porte de cimento do país.

A fábrica também tem importância social e cultural para a população. Foi a partir do fortalecimento da fábrica que a região de Perus se desenvolveu e surgiram as vilas operárias, como a Vila Triângulo. Para Regina Bortoto, integrante do Movimento pela Reapropriação da Fábrica de Cimento de Perus, “ela serve como um suporte da memória dos moradores da região”.

“Seria um erro pensar que a importância da fábrica é só para Perus, ela tem importância tanto para a cidade quanto para o país”, diz Sandeville. O cimento produzido na fábrica foi responsável pela construção de obras como o Vale do Anhangabaú, a Biblioteca Mario de Andrade e mesmo de Brasília.  O transporte do material foi possível graças à estrada de ferro Santos-Jundiaí, antiga São Paulo Railway, que conectava o litoral com o interior do estado – tombada pelo Conpresp em 2015.

A produção da fábrica durou até 1982, quando foi definitivamente fechada.

Vista da Fábrica de Cimento de Perus, Vila Inácio/Humberto do Lago Müller
Vista da Fábrica de Cimento de Perus, Vila Inácio/Humberto do Lago Müller

A LUTA DOS TRABALHADORES

A história de Perus está estritamente ligada ao movimento de luta dos trabalhadores, que ficaram conhecidos como Queixadas (referente a estratégia de luta de  uma espécie de porco selvagem). De acordo com Regina, os princípios da luta dos trabalhadores, como a não-violência, a solidariedade e a justiça viraram premissas para as pessoas que moram no bairro. “A Greve dos Sete Anos, comandada pelos Queixadas, que buscavam melhores condições de trabalho, é projetada até hoje para as novas gerações e vem como um exemplo de que podemos lutar para conquistar algo”, diz.

Outras greves e mobilizações aconteceram antes da Greve dos Sete Anos (1962-1969), a mais emblemática da história dos trabalhadores. Nela, os Queixadas brigaram por melhores salários, melhores condições de trabalho e pela desapropriação da fábrica. Apesar dos trabalhadores terem vencido a luta na Justiça, as condições de trabalho não melhoraram, o que gerou diversas greves e paralisações até o fechamento da fábrica.

Atualmente, a memória dos Queixadas permanece nos moradores da região, que se organizam no Movimento pela Reapropriação da Fábrica de Cimento de Perus. Eles desenvolvem atividades culturais e educativas em Perus e lutam pela construção de um centro cultural na antiga fábrica. 

UNIVERSIDADE LIVRE E COLABORATIVA

A iniciativa foi do Núcleo de Estudos da Paisagem da FAU/USP, coordenado por Sandeville, e começou suas atividades em 2011 como um grupo que se reúne na região com o objetivo de juntar prática com teoria. Segundo o professor, “o projeto gerou um pico de conhecimento para o bairro, onde os saberes da população somaram-se com os conhecimentos da universidade”. A universidade propõe atividades que envolvem moradores da região, estudantes e profissionais de várias áreas, buscando ressignificar os campos do patrimônio, da história e da memória de Perus.  “Na Universidade Livre e Colaborativa o conhecimento passa a ser visto de forma horizontal, não há hierarquia do saber”, explica Regina.