Pontos de parada de viajantes originaram os primeiros bairros de São Paulo

Vista Geral da Cidade de São Paulo/Jean-Baptiste Debret

Vista Geral da Cidade de São Paulo/Jean-Baptiste Debret

Foi através dos Peabirus, caminhos utilizados pelos indígenas, que os portugueses se movimentaram da costa ao Planalto de Piratininga, onde construíram o Pátio do Colégio, dando início à cidade de São Paulo. 

Já as primeiras vilas de São Paulo surgiram nos pontos de parada entre os caminhos que ligavam a cidade a outras regiões, como Minas Gerais, onde havia a mineração do ouro, o Rio de Janeiro, capital do país, e o Sul, de onde vinham as tropas de mulas. Foi a partir da expansão desses pequenos assentamentos que surgiram as primeiras freguesias e, depois, os primeiros bairros da cidade.

Reconstrução hipotética da Aldeia de Tibiriçá, no planalto de Piratininga/Vallandro Keating e Ricardo Maranhão
Reconstrução hipotética da Aldeia de Tibiriçá, no planalto de Piratininga/Vallandro Keating e Ricardo Maranhão

PINHEIROS

O Caminho de Pinheiros fazia a ligação entre São Paulo e o Sul, e era usado por tropas que levavam mantimentos para os outros centros urbanos.

A região onde hoje está o bairro de Pinheiros foi doada à Pero de Góis, primeiro capitão-mor da costa do Brasil, em 1532, por Martim Afonso de Sousa, militar português fundador da primeira cidade do Brasil (São Vicente). Na época a área se estendia do Butantã até parte do Pacaembu e, em 1584, tornou-se posse de Fernão Dias, um dos responsáveis pela expulsão dos Jesuítas, que se opunham à escravidão indígena. 

Há duas versões que contam a origem do nome do local. Uma diz que foi devido à grande presença de árvores araucárias na região, enquanto outra, defendida pelo jornalista e abolicionista João Mendes de Almeida (1831-1898), diz que a palavra “Pinheiros” originou-se a partir de uma corruptela da palavra indígena “Pi-iêrê”, ou “Rio Derramado”, devido ao transbordamento das águas do rio Pinheiros.

O Caminho de Pinheiros, que hoje corresponde à rua da Consolação, era o único acesso às terras que ficavam além do rio, sendo o mais destacado da Vila de São Paulo. O desenvolvimento da região se deveu em parte ao Sítio do Capão e ao comércio de sua produção agrícola, também propriedade de Fernão Dias.

Devido ao grande número de terrenos baldios e mato espesso, muitos quilombos foram formados na região para abrigar os escravos que fugiam de seus senhores.

Confluência dos rios Tietê e Pinheiros, em direção a Osasco antes da retificação/Autor Desconhecido

FREGUESIA DO Ó

O Caminho de Campinas ligava São Paulo aos pontos de exploração do ouro, na área do Jaraguá, e da produção de cana-de-açúcar, no interior. Era também usado para chegar ao sertão, para os estados de Mato Grosso e Goiás.

Foi nessa área que nasceu a Freguesia do Ó, fundada em 1580 pelo bandeirante Manoel Preto, que construiu na região a sede de sua fazenda junto com sua família e os índios escravizados. Suas terras se estendiam até o Pico do Jaraguá e os locais onde atualmente são os bairros Pirituba e Limão. A região foi batizada de Freguesia da Nossa Senhora do Ó após a divisão da Freguesia da Sé, em 1796.

A fazenda era uma parada para os viajantes que partiam para o Pico do Jaraguá em busca do lendário ouro da região. Na época era um grande polo de produção agrícola, especialmente de cana-de-açúcar, parte destinada para produzir a famosa “Caninha do Ó”.

É considerado o bairro mais antigo de São Paulo. Sua primeira capela, da Nossa Senhora da Esperança, hoje Largo da Matriz Velha, foi construída em 1610. Em 1794 uma construção de taipa tomou seu lugar. Mas por conta de um incêndio, em 1896, foi destruída. Os moradores construíram outra capela, batizada de Nossa Senhora do Ó, na região do Largo da Matriz. 

Vista da Freguesia do Ó no início do Século XX/Autor Desconhecido
Vista da Freguesia do Ó no início do Século 20/Autor desconhecido

SANTANA

O Caminho do Guaré, ou da Luz, teve origem em uma trilha indígena, e fazia a ligação entre São Paulo e Minas Gerais, região de exploração de ouro.

Nessa área foi construída a fazenda de Sant’Ana,  por muito tempo conhecida como Fazenda do Tietê, que deu origem ao atual bairro de Santana. Era parte do caminho que ligava São Paulo com Minas. Com o tempo, e com a ajuda dos Jesuítas, a fazenda ganhou diversas melhorias, como centros de plantação e criação de animais. 

No ano de 1821, a fazenda era chamada de Solar dos Andradas. Foi o local onde foi redigida a representação paulista, carta entregue ao Governo Imperial pedindo a declaração da Independência. O documento, escrito por José Bonifácio de Andrada e Silva, contribui para os eventos do “Dia do Fico”, em 9 de janeiro de 1822.

Quando Marquês de Pombal expulsou os Jesuítas, a fazenda foi confiscada e passou a ser administrada pelo governo. Suas terras iam do Jardim da Luz até às proximidades de Mairiporã. A população local era, em 1887, de aproximadamente 130 pessoas que trabalhavam na produção de batata, vinha e milho.

O Solar dos Andradas atualmente abriga o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de São Paulo/Pedu0303
O Solar dos Andradas atualmente abriga o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de São Paulo/ Pedu0303

PENHA

O Caminho do Vale do Paraíba e do Rio de Janeiro foi importante pela conexão às plantações de café do Vale do Paraíba, e pelo acesso ao Rio de Janeiro, na época capital do país.

Desse caminho nasceu o bairro da Penha. Conta-se que um viajante francês que carregava em sua mala uma imagem de Nossa Senhora dormiu sobre uma colina enquanto fazia o trajeto de São Paulo ao Rio de Janeiro. Ao seguir viagem, notou que a imagem da santa sumiu de seus pertences, reaparecendo no topo da colina.

Foi nesse local que, em 1667, a Igreja de Nossa Senhora da Penha foi construída, dando origem ao povoamento do bairro. Foi apenas em 1796 que a região foi nomeada Paróquia de Nossa Senhora da Penha de França, resultado do desmembramento da Paróquia da Sé.

As comemorações religiosas que acontecem até hoje reforçam as origens do bairro: a Festa do Rosário é comemorada todos os anos desde a sua criação em 2002 pela Igreja Nossa Senhora do Rosário, construída em 1802 pela Irmandade dos Homens Pretos.

Ladeira da Penha, atual Ladeira Cel. Carvalho. Do lado direito, o palacete Rodovalho com sua ponte que cruzava a ladeira/Autor Desconhecido
Ladeira da Penha, atual Ladeira Cel. Rodovalho. Do lado direito, o palacete Rodovalho com sua ponte que cruzava a ladeira/Autor Desconhecido

SANTO AMARO

Inicialmente, a região do bairro de Santo Amaro era conhecida como “Campo do Ibirapuera”, que em tupi significa “madeira podre”. Seus habitantes eram membros de uma aldeia indígena chefiada pelo cacique Caá-ubi, localizada à margem do rio Jurubatuba. O rio foi batizado oficialmente como Rio Pinheiros em 1950.

A terra foi doada aos Jesuítas em 1560, e após uma missa rezada pelo Padre Anchieta, decidiram chamar o local de Santo Amaro, em homenagem à imagem do santo que trouxeram de Portugal para o Brasil. A intenção de construir um povoado ali veio do próprio Padre Anchieta, ao perceber uma grande presença de índios catequizados e colonos na região.

A Capela de Santo Amaro foi elevada a freguesia em 1686, e em 1832 a Vila de Santo Amaro. Nesse mesmo ano tornou-se um município, mas em 1935, mais de cem anos depois, foi anexado à cidade de São Paulo, fazendo surgir diversos movimentos de emancipação.