Por que há tantas galerias no centro da cidade?

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Conjunto Zarvos/Rafaella Arcuschin/DPH/SMC

Quem conhece a República, ou o “Centro Novo”, certamente já passou pela experiência de atravessar uma galeria comercial. Nessa região da cidade, há nada menos que vinte galerias em térreos de edifícios. Algumas concentram um comércio especializado, como a Galeria 7 de abril, de equipamentos fotográficos, outras oferecem uma diversidade de lojas, restaurantes e serviços, como a do edifício Copan. Já parou para se perguntar por que as galerias se concentram nessa região da cidade?

O surgimento de galerias no centro novo está relacionada ao processo de urbanização e verticalização de São Paulo ocorrido na primeira metade do século 20. O desenvolvimento da cidade resultou na criação de planos e legislações urbanas que buscavam consolidar uma imagem de cidade cosmopolita. Neste contexto o Código de Obras Arthur Saboya (1930) e as modificações propostas pelo prefeito Prestes Maia (1938-1945) incentivaram a construção de edifícios mais altos no centro e o uso do térreo como espaços de fluidez e comércio. A altura dos prédios era calculada em função da largura das ruas, ou seja, em vias largas os edifícios poderiam ser mais altos.

Nos anos 1940, Prestes Maia revisou o Código de Obras e estimulou que os edifícios com mais de 20 pavimentos apresentassem reentrâncias públicas formadas por portal, galeria ou colunata¹. Além disso, Maia desenvolveu a ideia de um “Centro Novo”, correspondente à região da atual República. Para essa área, a verticalização foi incentivada ainda mais, e eram exigidas alturas mínimas para as principais avenidas. A primeira referência à essa nova centralidade na cidade foi apresentada no Plano de Avenidas, elaborado por Prestes Maia em 1930: 

[…] tal mudança para além do Anhangabaú é tão indicada pela topographia que já se realiza naturalmente: dous viaductos e a avenida São João transpõe o valle e o commercio alastra-se para ahi com energia crescente. Movimento bem visível, sobre o que é inútil insistir […]³

As duas entradas da Galeria Metrópole/Rafaella Arcuschin/DPH/SMC

O Plano de Avenidas foi outro elemento importante na verticalização e estabelecimento de edifícios com térreo comercial no centro. Foi executado entre o final da década de 1930 e os anos 1960, implantando um sistema viário composto por vias radiais e perimetrais. 

Anos mais tarde, em 1957, durante a gestão de Ademar Pereira de Barros, foi sancionada uma lei² que obrigava os prédios com frente para as ruas Direita, São Bento, 24 de Maio e 7 de Abril a conterem galerias junto à calçada e marquises cobrindo o passeio. Essa recomendação fazia parte da política de consolidar o centro novo como área comercial.

Obras como a Galeria Metrópole, o Copan e o Conjunto Zarvos foram idealizados nos anos 1950, durante o processo de verticalização e consolidação do centro novo. São prédios tombados pelo Conpresp devido à relevância para a arquitetura moderna, pois representavam o progresso e a modernidade que São Paulo buscava expressar naquela época. Esse conjunto de galerias marcam um momento de transformação intensa na cidade, crescimento populacional e grande atividade imobiliária. Também há uma alteração do estilo de vida dos cidadãos. A partir dessa época, a quantidade de pessoas morando e trabalhando em prédios aumentou, assim como o consumo de refeições fora de casa, o que levou ao surgimento de bares, restaurantes e cafés.  

Nota-se nesses três exemplos de galeria a busca dos edifícios pela conexão com a cidade. Isso ocorreu por meio da criação, entre outros, de caminhos alternativos para atravessar o centro. E há outros elementos arquitetônicos que promovem essa ligação, como a marquise que protege da chuva e convida a entrar no prédio e os jardins internos que oferecem um espaço de respiro e permanência. Nas três obras é possível perceber a presença das propostas do Código de Obras Arthur Saboya, as revisões de Prestes Maia e o Plano de Avenidas. Saiba mais sobre essas galerias:

 

Copan (1951)

edificio copan_131213_foto_josecordeiro_0018Edifício Copan/Jose Cordeiro/SPTuris

O Copan, projeto de Oscar Niemeyer em colaboração com Carlos Lemos, tem acessos por quatro diferentes vias: avenidas Ipiranga e São Luis, e ruas Araújo e Unaí. A entrada pela avenida Ipiranga é marcada por pilotis e uma marquise. Os pilotis, característicos do Modernismo, possibilitam o térreo livre para as lojas da galeria, e a marquise protege quem está passando pela rua. O projeto conservou os desníveis naturais do terreno, reforçando a sensação de que a rua entra no Copan.

O edifício é quase uma cidade: além de seus 1.160 apartamentos de tamanhos variados, restaurantes, galeria de arte, pet shop, salão de beleza, cabelereiro, entre outros, formam um verdadeiro centro comercial no térreo, com 72 lojas.

 

Galeria Metrópole (1959)

metropole 5Uma das entradas da Galeria Metrópole/Rafaella Arcuschin/DPH/SMC

A Galeria Metrópole, projeto de Salvador Candia e Giancarlo Gasperini, apresenta três acessos que determinaram o conceito do projeto: a praça Dom José Gaspar e as avenidas Ipiranga e São Luís. Essas avenidas são importantes na região por causa da presença do transporte público (estação República do Metrô e pontos de ônibus). São também vias de conexão estruturadas no Plano de Avenidas. A praça Dom José Gaspar é rodeada por bares e restaurantes, e uma entrada neste ponto prioriza o passeio e estimula a permanência de pessoas no local.

A ideia de permeabilidade da quadra apresentada na legislação de 1940 é explorada nesta construção. Cada entrada oferece experiências diferentes de percepção do espaço. Por exemplo, ao entrar pela praça Dom José Gaspar se destacam o jardim interno e as escadas rolantes cruzadas. A sensação de quem entra pela avenida São Luís é distinta: um corredor de lojas que se abre para o jardim interno. O jardim possibilita a iluminação e ventilação naturais e parece ser uma continuação da praça. As lojas dos andares superiores são rodeadas por varandas, promovendo a conexão do edifício com o entorno.

 

Conjunto Zarvos (1958)

 Fachada do Conjunto Zarvos/Rafaella Arcuschin/DPH/SMC

O projeto do Conjunto Zarvos, de Júlio Neves, chama atenção pelo desnível de seus acessos: a rua da Consolação está um andar acima da avenida São Luís. A galeria funciona como caminho alternativo, uma rua interna rodeada de lojas e cafés. 

Há no edifício um nível intermediário, um metro acima da laje das lojas, com um balcão com vista para o conjunto formado pela praça Dom José Gaspar e Biblioteca Mário de Andrade. Nos anos 1960, o espaço era ocupado pelo bar Paddock, conhecido pelos clientes boêmios. A galeria também era repleta de livrarias frequentadas por jornalistas, professores e arquitetos.

zarvos3Vista para a praça Dom José Gaspar/Rafaella Arcuschin/DPH/SMC

Informações obtidas com os arquitetos do DPH e nos seguintes documentos:

  1. Decreto-Lei nº 41 de 1940
  2. Lei nº 5114 de 1957
  3. COSTA, 2010 apud MAIS; Prestes, 1930, p. 53

* COSTA, Sabrina Studart Fontenele. Relações do traçado urbano e os edifícios modernos no Centro de São Paulo. Arquitetura e Cidade (1938/1960). 2010. 274 f. Tese (Doutorado) – Curso de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.

*FREITAS JUNIOR, Roberto de Gouveia e. Legislação e ocupação urbana em lotes privados do centro de São Paulo no século XX. 2008. 236 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Engenharia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.