Bairro histórico, Bexiga já foi alvo de série de projetos

Moradores do bairro. Cristiano Mascaro/Revista Projeto, nº 138. Fevereiro 1991.

Moradores do bairro/ Cristiano Mascaro/Revista Projeto, nº 138/ Fevereiro 1991

por Amanda Ferrarese

Lugar de caçada, descanso de tropeiros e refúgio para escravos¹. O bairro do Bexiga, mais conhecido pelas cantinas, escolas de samba, teatros e casas noturnas tem uma história mais densa do que podemos imaginar.

chacara do bexiga

Desenho da Chácara do Bexiga. Nota-se o traçado de ruas existentes como a rua Treze de Maio e a rua Conselheiro Carrão/ EMURB

O processo de urbanização do bairro começou por volta de 1878, quando a área foi loteada. Os terrenos eram de pequena largura e grande profundidade. Por serem mais baratos do que os do triângulo histórico, área que hoje corresponde à região da Sé, eram acessíveis a escravos libertos, imigrantes italianos e concentraram essa população. Quase um século depois, nos anos 1970, também recebeu migrantes do norte e nordeste do país, trazendo mais diversidade cultural ao bairro.

terrenos no bexiga

Anúncio de 1880, venda de terrenos no Bexiga/EMURB

Tendo em vista sua importância cultural para a cidade (concentra nada menos que um terço dos cerca de 3400 bens tombados do município), suscita desde os anos 1970 iniciativas do poder público para que se desenvolva considerando sua relevância histórica.

Duas grandes intervenções foram propostas para a região. Embora não tenham saído do papel, elas mostram quais eram as visões de futuro para aquela área da cidade. Em meados dos anos 1970, a Cogep (que se tornaria a Secretaria Municipal de Planejamento) contratou um projeto do premiado arquiteto Paulo Mendes da Rocha para a área do Grotão. Em 1989, a Emurb (antiga empresa municipal de urbanização) fez um concurso nacional de ideias para a área do Bexiga todo, com três projetos premiados.

Essas quatro diferentes propostas buscaram unir memória, crescimento e atualização do bairro. Foram desenvolvidos com cerca de 15 anos de diferença, mas apresentam preocupações comuns, como a questão da moradia, do patrimônio histórico, das atividades culturais e recreativas do bairro.

Veja abaixo esses projetos, publicados nas revistas Módulo¹ (não circula mais) e Projeto Design².

 

Parque da Grota¹

 

Área do Parque da Grota. Paulo Mendes da Rocha

Área do Parque da Grota/ Paulo Mendes da Rocha

O Grotão é um vale entre a avenida Paulista e o Morro dos Ingleses. Quem passa por suas ruas íngremes e curvas, pontuadas por residências assobradadas, pequenos comércios e crianças brincando na rua esquece que está muito próximo de uma das vias mais movimentadas da cidade.

A proposta de uma intervenção surgiu após estudo da Cogep no bairro da Bela Vista. Paulo Mendes da Rocha (ganhador de dois importantes prêmios de arquitetura: o Pritzker e a Medalha de Ouro do RIBA) foi o arquiteto convidado para desenvolver o projeto, que levou o nome Parque da Grota. Buscava criar mais moradias, aproveitar recursos presentes na área e incentivar as atividades culturais e recreativas.

 

Croqui do projeto. 1-Espetáculos e diverões. 2-Habitação 3-Habitação e saúde. 4-Sistema Viário. 5 e 6-Hotel. 7-Paisagismo/ Paulo Mendes da Rocha

Paulo Mendes buscou elevar a qualidade de vida do bairro a partir das demandas dos moradores. O projeto de paisagismo tratava da arborização de encostas, taludes, ruas e transformava os miolos de quadras em jardins públicos.

Habitação é um elemento importante no Bexiga, pois o bairro tem grande parte de sua população em cortiços. O arquiteto recomendou que os edifícios com mais de quatro andares em bom estado de conservação fossem mantidos. Os novos edifícios teriam no máximo 15 pavimentos e térreo destinado ao comércio e áreas de lazer.

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Planta e corte esquemáticos dos edifícios circulares de habitação/ Paulo Mendes da Rocha

Para atender a demanda turística e cultural, seria construído um hotel na área mais alta do Grotão, próximo à avenida Paulista. A música, elemento muito importante na identidade do bairro, foi contemplada com um espaço para apresentações e ensaios das escolas de samba. Haveria ainda no parque uma escola de música, cinema, teatro e conjunto de baile.

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Corte esquemático do centro popular de música e edifício existente. 1-Galerias. 2-Loja e sobrelojas. 3-Terraço. 4-Cinema e exposições/Paulo Mendes da Rocha

Concurso Nacional de Ideias para a Renovação Urbana e Preservação do Bexiga²

O concurso ocorreu em 1989. Reuniu propostas de requalificação de ruas, espaços públicos, moradias, preservação da memória e do patrimônio histórico. Consultas à população e uma série fotográfica de Cristiano Mascaro antecederam a elaboração das normas para o concurso.

Trinta trabalhos chegaram à Emurb. Destes, três foram selecionados após a votação de um júri composto por estudiosos da cidade, especialistas multidisciplinares e população do bairro. Conheça os três projetos vencedores deste concurso.

 

Delimitação da área do concurso/EMURB

Equipe Azul (vencedora)

A partir da análise histórica e das condições do Bexiga naquele momento, a equipe procurou reabilitar habitações, preservar áreas com valor simbólico e implantar equipamentos sociais.

 

EQUIPE AZUL

Maquete da equipe Azul. Vista da rua Conselheiro Carrão/ Revista Projeto, nº 138/ Fevereiro 1991

A equipe azul propôs também um sistema gerencial para implantar a ideias. Ele teria uma base física no bairro (o Espaço Bexiga) para reuniões, estudos e debates sobre as intervenções.

EQUIPE AZUL 2

Vista aérea da maquete da equipe Azul. Os tons de azul indicam os níveis de preservação dos edifícios/ Revista Projeto, nº 138/ Fevereiro 1991

Nas áreas de maior interesse histórico, a equipe recomendou uma análise quadra a quadra, para que o projeto tirasse partido da arquitetura local.

[A equipe Azul (ArqGrupo), de Recife, era composta por Amélia Reynaldo, Ana Lúcia Barros, Katia Costa Pinto, Maria José Marques, Suely Maciel, Teresa Uchoa e Antônio Montenegro]

 

Equipe Vermelha (segunda colocada)

EQUIPE VERMELHA

Comparativo entre situação atual e projeto proposto pela equipe Vermelha/ Revista Projeto, nº 138/ Fevereiro 1991

Essa equipe buscou reverter a descaracterização do bairro, que via como parte de um processo de desenvolvimento imobiliária sem critérios. Propôs um novo zoneamento e classificou a área em quatro zonas típicas: estáveis, degradadas, preservação e expansão.

Sugeriu conservar e melhorar as habitações da zona de preservação, mantendo os moradores residentes. Na zona de expansão, por outro lado, poderiam ser construídas novas habitações de padrões diversificados.

 

EQUIPE VERMELHA_2

Proposta de preservação da arquitetura local/ Revista Projeto, nº 138/ Fevereiro 1991

Para a circulação de carros, a equipe propôs o desvio do trânsito de passagem e criação de linhas internas de ônibus. Para estimular a circulação a pé, sugeria a construção de estacionamentos e de uma rede de vias para pedestres.

[A equipe Vermelha, de São Paulo, era composta por José de Souza Moraes, Carla Tischer, Cristina Shahini e Roberto]

 

Equipe Amarela (terceira colocada)

EQUIPE AMARELA

Proposta da estação de ônibus elétrico, próximo à rua Major Diogo/ Revista Projeto, nº 138/ Fevereiro 1991

A proposta da equipe Amarela era “desilhar” o bairro, preso entre as avenidas Paulista, Vinte e Três de Maio e Nove de Julho. Essa reconexão com a cidade seria obtida por meio de uma rede de transportes composta por ônibus elétricos e ônibus circulares.

Pensando na qualidade espacial do bairro, a equipe carioca propôs transformar a rua Treze de Maio, onde fica a maior parte dos restaurantes, em um corredor cultural. Também propôs criar mais espaços públicos de lazer, como um calçadão em frente à Igreja Nossa Senhora Achiropita.

 

EQUIPE AMARELA_2

Calçadão em frente à Igreja Nossa Senhora Achiropita/ Revista Projeto, nº 138/ Fevereiro 1991

[A equipe Amarela, carioca, era composta por Demetre Basile Anastassakis, Léa Anastassakis, Christiane Lemos Ammon, Carmen Gonzales Vilas, Canagé Vilhena da Silva, Maristela Turi medeiros, Carlos José Torres Fernandes da Silva, Fábio Williams Doubs e Anne Wistanley]

 

1.Revista Módulo, nº 42. Março/Maio 1976. Página 83.

2.Revista Projeto, nº 138. Fevereiro 1991. Página 78. Textos de Célia da Rocha Paes, Sarah Feldman, José de Souza Moraes.