São Paulo, a cidade que se fez e refez em taipa, alvenaria e concreto em menos de cem anos

Mosteiro da Luz em 1862/Autor Desconhecido

Mosteiro da Luz em 1862/Autor Desconhecido

São Paulo se transformou profundamente na virada do século 19 para o 20. Neste período, é possível dizer que ela foi três lugares distintos: a vila de taipa, a cidade cafeeira de alvenaria e a metrópole verticalizada em concreto armado. Segundo Benedito Lima de Toledo, que concebeu esta tese em seu livro “São Paulo: três cidades em um século”, a cidade é um palimpsesto: um pergaminho que é raspado e escrito por cima, mas conserva caracteres do texto anterior. São Paulo, como o palimpsesto, é reconstruída de tempos em tempos.

A cidade que começou como aldeamento jesuítico, foi, no período colonial, um entreposto nos caminhos para Minas Gerais, para o Sul do país e o Rio de Janeiro. Pequena, suas principais funções se concentravam em um triângulo delimitado pelos conventos de São Francisco, São Bento e do Carmo, correspondendo grosso modo ao que hoje chamamos de Centro Velho.

Predominavam as construções de taipa de pilão, ou seja, basicamente de barro, protegidas da chuva por amplos beirais. A maioria dessas construções foi demolida, mas um expressivo remanescente é o Convento da Luz. O convento sobreviveu às transformações urbanas e é considerada a maior construção de taipa de São Paulo. Atualmente abriga o Museu de Arte Sacra. Também restou, no centro, uma única residência, a casa de Elias Chaves, na rua São Bento, além de casas bandeiristas em locais mais afastados, como o atual Butantã. Temos ainda as igrejas como a da Ordem Terceira do Carmo, as duas de São Francisco, no largo do São Francisco, embora em algumas edificações as fachadas tenham sido alteradas.

Mosteiro da Luz atualmente/Luiz Coelho
Mosteiro da Luz atualmente/Luiz Coelho

Em meados de 1860, São Paulo recebeu uma estação da linha ferroviária que ligava Santos ao interior, a Estação da Luz (o primeiro edifício da estação, mais simples, foi substituído anos depois pelo que conhecemos). Com isso, a cidade então se expandiu para além do triângulo histórico, seguindo a linha do trem e os caminhos antigos que a ligavam a Minas, ao Rio, a Santos. A burguesia cafeeira, com a novidade do acesso por trem, a burguesia cafeeira deixou as fazendas do interior para se instalar em exuberantes palacetes ecléticos na capital. A riqueza do café permitiu o surgimento de indústrias, o que atraiu trabalhadores imigrantes.

Esses imigrantes trouxeram novas técnicas construtivas, como a alvenaria de tijolos, e a construção civil foi dominada pelos mestres de obra italianos e alemães. Aos poucos, aquela imagem de cidade de barro deu lugar a obras ecléticas, com estilos afrancesados. Foi a época dos palacetes, vilas operárias e grandes obras públicas como a própria Estação da Luz.

Estação da Luz/Arquivo Público do Estado de são Paulo
Estação da Luz/Arquivo Público do Estado de são Paulo
Estação da Luz/Webysther Nunes
Estação da Luz/Webysther Nunes

Desta época temos edificações como o palacete da Vila Penteado, hoje campus da pós-graduação da FAU-USP, em Higienópolis, o Palácio dos Campos Elíseos, antiga residência do cafeicultor e político Elias Antônio Pacheco e Chaves, no bairro de mesmo nome, o casario do bairro do Bexiga, na Bela Vista, a Vila Maria Zélia, no Belenzinho.

Vila Penteado/Autor Desconhecido
Vila Penteado/Autor Desconhecido
Fotografia da Fau situada na Rua Maranhão/FAU USP
Fotografia da Fau situada na Rua Maranhão/FAU USP

Do fim do século 19 ao início do século 20, São Paulo mudou sua feição e não era mais aquela cidade de passagem, tampouco a cidade eclética do café. Havia se tornado o principal centro industrial do país e importante polo cultural. Antigas construções de taipa e alvenaria deram rapidamente lugar a altos edifícios, possíveis pela nova tecnologia construtiva: o concreto armado. Nesse momento, São Paulo também teve seus primeiros planos urbanos, como o “Grandes Avenidas”, que buscou a abertura de vias ligando o centro a outras áreas da cidade como Campos Elíseos, Largo do Arouche e as estações da Luz e Sorocabana.

O Viaduto do Chá, o edifício Martinelli e o edifício Esther, primeiro em linguagem modernista da cidade, são todos exemplos de arquitetura em concreto armado da primeira metade do século 20.

Edifício Martinelli na década de 1950/Sebastião de Assis Ferreira
Edifício Martinelli na década de 1950/Sebastião de Assis Ferreira
Edifício Martinelli/Guia de Bens Culturais da Cidade de São Paulo
Edifício Martinelli/Guia de Bens Culturais da Cidade de São Paulo

No prefácio do livro de Benedito Lima de Toledo, publicado em 1980, o arquiteto e historiador da arquitetura Leonardo Benévolo, que morreu no começo deste mês, ressaltava a velocidade com que São Paulo se transforma e a importância de se estudar sua história:

“As cidades brasileiras crescem muito rapidamente e, entre elas, São Paulo mais do que qualquer outra. A velocidade é tão grande a ponto de apagar, no espaço de uma vida humana, o ambiente de uma geração anterior: os jovens não conhecem a cidade onde, jovens como eles, viveram os adultos. Assim, as lembranças são mais duradouras do que o cenário construído, e não encontram nele um apoio e um reforço. Os estudos históricos tornam-se então, duplamente necessários, para que não se deixem cair no esquecimento os cenários da vida passada, e para restituir profundidade à experiência do ambiente urbano”.