Tatuapé e região: de antigo caminho para o Rio a área industrial

viaduto conselheiro carrao_1970_ivo justino

Viaduto Conselheiro Carrão/Ivo Justino, 1970

A área do Tatuapé foi ocupada desde o período colonial por antigas sesmarias, com atividades agrícolas e pastoris esparsas. Ocupação semelhante  de outras regiões à leste do Rio Tamanduateí e situadas entre a várzea do rio Tietê e as áreas mais altas dos caminhos que ligavam o centro da cidade à Penha, São Miguel e Vale do Paraíba.

Casa do Tatuapé, uma casa bandeirista do século 17, é exemplar dessa ocupação. A construção, em taipa de pilão, tem uma peculiaridade em relação às construções paulistas semelhantes: o telhado de duas águas, em vez de uma. A casa teve usos muito variados ao longo dos tempo: pertenceu a uma olaria e já fez parte do terreno da Tecelagem Textilia. Atualmente a casa integra o conjunto de imóveis do Museu da Cidade de São Paulo.

Casa do Sítio do Tatuapé/Domínio publico
Casa do Sítio do Tatuapé/Domínio publico

Outra destacada construção do período colonial é a Casa do Sítio do Capão, também construída em taipa de pilão. A primeira referência a esta casa é do século 17 e desde então passou por muitos donos. O mais ilustre foi Diogo Antônio Feijó, já no século 19. Ao longo do tempo o imóvel sofreu alterações e hoje não possui a típica disposição das demais casas bandeiristas, com alpendre central e cinco cômodos. O sítio do Capão, onde a casa se localizava, foi sendo loteado a partir de meados do século 20 e originou bairros como o Jardim Anália Franco e a Água Rasa.

Casa do Regente Feijó (ou Casa do Sítio do Capão), em taipa de pilão/Cauhy Jupira, 2004

A urbanização do Tatuapé se desenvolveu principalmente por causa das indústrias que se estabeleceram ali nos primeiros anos do século 20, como as olarias que produziam telhas para a construção civil. A partir da década de 1920, a região recebeu indústrias têxteis, como o Grupo Santista, o Cotonifício Guilherme Giorgi e a Tabacow.

Nesse período ocorreu o loteamento de diversos sítios e chácaras, como o Sítio Casa Grande, que formou a Vila Formosa, com projeto do engenheiro urbanista Jorge de Macedo Vieira. Origem similar teve o distrito Carrão, parcelado em 1916 a partir da antiga chácara do Conselheiro Carrão.

Quando as indústrias chegaram à região, estes bairros passaram a ser a moradia para muitos operários. As fábricas permaneceram até a década de 1970, quando foram atraídas para o interior do Estado com incentivos fiscais. Começou então a transformação da paisagem industrial desse território. Hoje ele é um dos mais densos e verticalizados da cidade. Muitos destes bairros da zona leste, no entanto, conservam ainda hoje algumas de suas antigas vilas operárias.

av. Alcântara Machado em 1970/Ivo Justino
av. Alcântara Machado em 1970/Ivo Justino

A avenida Alcântara Machado e os trilhos do metrô também moldaram a paisagem do bairro, contribuindo para a sua transformação. Ambos dividem hoje o espaço onde ficava a linha férrea da Central do Brasil, que, desde o final do século 19, conectava São Paulo ao Vale do Paraíba e o Rio de Janeiro.

A Radial Leste, parcialmente implantada já na década de 1940, e a linha 3-vermelha do Metrô, construída na década de 1970, também facilitaram o acesso ao centro da cidade e promoveram a ocupação e o crescimento de bairros como a Vila Matilde e o Aricanduva. Este último, situado na área de várzea do rio Aricanduva, sofria com enchentes até os anos 1970, quando começaram as obras de drenagem e canalização do rio.

Com a urbanização da região foi necessário construir equipamentos como escolas e parques. Em 1948 foi inaugurada a escola municipal de Educação Infantil Presidente Dutra. Projetada em estilo neocolonial, a escola constitui uma espécie de híbrido entre clube e escola infantil.

Parque Infantil do Tatuapé/Autor desconhecido, 1960
Parque Infantil do Tatuapé/Autor desconhecido, 1960

Parque do Piqueri, inaugurado na década de 1970 é outro importante equipamento urbano da região. Corresponde à antiga Chácara do Piqueri, que pertenceu ao conde Matarazzo, e o prédio da administração é remanescente dessa ocupação. Está localizado na confluência do ribeirão do Tatuapé e do rio Tietê. O nome Piqueri é uma referência à tribo indígena que habitava a região, e o parque possui vegetação diversa como as árvores grumixama e o pinheiro-do-paraná, espécies ameaçadas.